A Air de Paris, uma das galerias mais influentes do cenário artístico francês, encerrará suas atividades e declarará falência após 36 anos de operação. A decisão foi confirmada pelos fundadores, Florence Bonnefous e Edouard Merino, em entrevista à revista Cultured. O encerramento ocorre em um momento de transição para ambos, que enfrentam problemas de saúde, além de uma reavaliação crítica sobre o futuro das operações no mercado de arte contemporânea.

Segundo o relato, a galeria não possui dívidas pendentes com os artistas, concentrando seus débitos apenas junto ao proprietário do imóvel e ao banco. A trajetória da Air de Paris, iniciada em Nice em 1990 e consolidada em Paris desde 1994, deixa um legado significativo de fomento a nomes hoje renomados, como Liam Gillick, Carsten Höller e Pierre Huyghe. A exposição de despedida, intitulada “Oh What a Time”, reuniu uma seleção de artistas que definiram a identidade da marca ao longo das décadas.

O distanciamento do modelo corporativo

O fim da Air de Paris não é apenas uma questão de saúde ou finanças, mas um sintoma de um descontentamento mais amplo. Bonnefous afirmou que o desejo de realizar um trabalho diferente e a necessidade de se distanciar da forma como o mercado de arte se desenvolveu foram fatores determinantes. A galeria, que sempre manteve uma postura independente, observou com ceticismo a transformação das feiras e do ecossistema artístico em estruturas voltadas estritamente para a eficiência gerencial.

Essa postura ficou evidente há um ano, quando a galeria retirou-se da edição suíça da Art Basel em protesto contra mudanças no layout da feira. Na ocasião, a Air de Paris criticou abertamente a tendência de um modelo mais corporativista. Para os fundadores, a priorização da lógica de negócios em detrimento da curadoria artística tradicional tornou o ambiente menos sustentável para galerias de perfil autoral.

O impacto da gestão nas galerias independentes

O caso da Air de Paris levanta questões sobre a viabilidade de galerias de médio porte frente à pressão das grandes multinacionais do setor. O modelo de negócios que privilegia a escala e a eficiência operacional tem forçado players tradicionais a repensarem sua presença em eventos globais. A transição para um mercado mais concentrado, onde poucas entidades dominam a agenda, cria um cenário hostil para quem busca manter uma curadoria independente.

Historicamente, a galeria funcionou como um laboratório para a vanguarda, participando ativamente de comitês de seleção e moldando o gosto do colecionismo contemporâneo. A perda dessa voz representa um vazio institucional, especialmente considerando que a galeria serviu de ponto de referência para gerações de curadores e artistas que buscavam um caminho fora dos grandes conglomerados.

O futuro dos espólios e a curadoria contínua

Embora a galeria feche, o trabalho de Bonnefous continuará em outra esfera. Ela manterá a gestão dos espólios de artistas como Guy de Cointet, Pati Hill e Dorothy Iannone, além de seguir atuando como curadora independente. Essa transição reflete uma mudança comum no setor, onde a figura do galerista se descola da estrutura física da galeria para se tornar um gestor de legados e consultor de projetos específicos.

Para os artistas representados, o fechamento exige uma realocação em um mercado cada vez mais competitivo e saturado. A capacidade de Bonnefous em preservar o valor cultural das obras sob sua guarda será um teste importante sobre como o mercado de arte pode honrar a história em um ambiente que, muitas vezes, descarta o que não se encaixa na lógica de lucro imediato.

Incertezas sobre o mercado de feiras

O setor de feiras de arte, que já foi o principal motor de visibilidade para a Air de Paris, enfrenta agora um escrutínio maior. O descontentamento manifestado pela galeria em relação à Art Basel é um paralelo do que ocorre em outros mercados, onde a relação entre galerias e organizadores de eventos está cada vez mais tensa. Observar se outras galerias seguirão o mesmo caminho de resistência ou se haverá uma reacomodação das feiras é o ponto central para os próximos anos.

O legado da Air de Paris permanece, mas o encerramento serve como um lembrete de que a longevidade no mercado de arte não garante imunidade às mudanças estruturais. O setor, que valoriza a tradição, também demonstra ser implacável com as estruturas que não se adaptam à nova realidade corporativa. A questão que fica é se o mercado de arte contemporânea conseguirá manter sua diversidade sem as galerias que operam fora da lógica de escala.

O encerramento de um espaço com 36 anos de história marca o fim de uma era em que a curadoria era o pilar central da galeria. Enquanto a arte continua a circular entre colecionadores e museus, a estrutura que sustentava essa circulação passa por uma transformação profunda. O setor observa atentamente se novas formas de representação artística surgirão para preencher o espaço deixado por instituições que, como a Air de Paris, priorizaram a visão sobre a eficiência.

Com reportagem de ARTnews

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