A artista japonesa Yuko Mohri inaugurou recentemente no Centro Botín, na Espanha, a exposição Entanglements, uma exploração profunda sobre os sistemas invisíveis que sustentam a realidade cotidiana. Após o sucesso de sua apresentação no Pavilhão do Japão na Bienal de Veneza de 2024, Mohri expande agora sua investigação sobre o acaso e a instabilidade, transformando o espaço projetado por Renzo Piano em uma rede viva de som e movimento.
A mostra, organizada em parceria com o Pirelli HangarBicocca, utiliza desde objetos domésticos, como colheres e luvas de borracha, até sistemas eletrônicos complexos que funcionam com a energia de frutas em decomposição. Segundo reportagem do Designboom, o trabalho de Mohri não busca uma resolução estética final, mas sim a criação de ambientes que evoluem constantemente, respondendo a variáveis como umidade, poeira e correntes de ar presentes no local.
A estética do imperceptível
A trajetória de Yuko Mohri, que estudou artes plásticas na Universidade de Artes de Tóquio enquanto integrava a banda punk Sisforsound, reflete-se diretamente na natureza rítmica de suas instalações. Para a artista, a distinção entre o que é considerado música e o ruído de fundo é uma construção arbitrária. Em suas obras, o zumbido de um motor ou o impacto de um objeto metálico possuem o mesmo valor artístico que uma nota musical, desafiando o espectador a ouvir além do óbvio.
Essa sensibilidade para com o que é ignorado estende-se à escolha de materiais. Ao utilizar objetos baratos e descartáveis em sistemas delicados, a artista provoca uma reflexão sobre a dignidade do ordinário. A leitura aqui é que Mohri não apenas organiza objetos, mas orquestra uma coreografia de elementos que, por si sós, seriam considerados lixo ou ruído, conferindo-lhes uma nova função dentro de um ecossistema poético e técnico.
Mecanismos de adaptação e acaso
O cerne da prática de Mohri reside na instabilidade. Suas esculturas cinéticas são desenhadas para serem responsivas, o que significa que a performance da obra muda conforme o ambiente ao seu redor. Se a umidade do ar aumenta ou se há uma alteração na circulação de pessoas pelo Centro Botín, os instrumentos autorreguláveis e os sistemas eletrônicos ajustam sua cadência. Essa dinâmica transforma o visitante em um componente ativo do sistema, retirando-o da posição de observador passivo.
O conceito de emaranhamento, que dá título à exposição, refere-se a essa impossibilidade de isolar objetos ou forças. Para a artista, a tecnologia e a ecologia não operam em esferas separadas. Ao integrar sistemas eletrônicos com processos biológicos, Mohri revela a fragilidade das redes que compõem nosso cotidiano, sugerindo que tudo está, em última instância, interconectado por fluxos de energia que raramente paramos para notar.
Implicações da arte sistêmica
Para o campo das artes visuais, a abordagem de Mohri sinaliza uma mudança na forma como o público interage com espaços expositivos. Ao criar obras que nunca estão completas, a artista rompe com o modelo tradicional de museu como um repositório estático. Esse modelo exige que instituições de arte repensem suas políticas de conservação e curadoria, já que a obra, por definição, está sujeita a mudanças imprevisíveis e ao desgaste natural dos materiais orgânicos utilizados.
Além disso, o uso de resíduos eletrônicos e materiais de baixo custo aponta para uma tendência crescente na arte contemporânea de questionar o consumo e o descarte. Ao dar uma nova vida a objetos descartados, Mohri não faz um discurso panfletário sobre sustentabilidade, mas demonstra, na prática, como a reinvenção de objetos cotidianos pode gerar um sentido de novidade e complexidade. A tensão reside justamente no equilíbrio entre a fragilidade do material e a sofisticação do sistema que o sustenta.
Horizontes e incertezas
O que permanece como uma questão em aberto é até onde a autonomia dessas máquinas pode levar a experiência estética. À medida que as instalações reagem ao ambiente de forma cada vez mais independente, o papel do artista como autor torna-se mais difuso. O espectador, por sua vez, é deixado com a tarefa de interpretar o que é intenção e o que é puro acaso, uma fronteira que Mohri parece deliberadamente manter borrada.
Observar como essas obras evoluirão até o encerramento da mostra, em setembro de 2026, será fundamental para entender a longevidade desses sistemas improvisados. A expectativa é que, ao sair da exposição, o visitante carregue consigo uma percepção alterada sobre as energias que permeiam seu próprio ambiente, transformando a rotina em um exercício de observação constante.
O trabalho de Yuko Mohri convida, acima de tudo, a um estado de atenção prolongada sobre o que geralmente ignoramos. Se a arte tem o poder de reconfigurar a realidade do observador, o sucesso desta exposição será medido por essa pequena mudança na percepção do cotidiano.
Com reportagem de Designboom
Source · Designboom





