A Alemanha iniciou uma busca estratégica por alternativas aos mísseis de cruzeiro Tomahawk, recorrendo a startups da Ucrânia e de Israel para compor sua capacidade de ataque de longo alcance. Documentos de planejamento do Ministério da Defesa, revelados por reportagem da POLITICO, indicam que Berlim diversifica suas opções para garantir dissuasão contra a Rússia, especialmente após mudanças na política de defesa dos Estados Unidos.
A mudança de curso reflete uma necessidade urgente de soberania operacional. Com a incerteza sobre o envio de tropas americanas equipadas com sistemas Tomahawk para o solo alemão e a limitação dos estoques americanos após o conflito no Irã, a Alemanha busca sistemas mais baratos, ágeis e capazes de serem produzidos em escala, alterando uma dependência histórica de décadas em relação a Washington.
A busca por soberania em defesa
Historicamente, a doutrina de defesa alemã baseou-se na premissa de que os Estados Unidos forneceriam o poder de fogo necessário para deter ameaças no Leste Europeu. Essa lógica, contudo, foi abalada por uma combinação de fatores geopolíticos e logísticos. A escassez de estoques de mísseis nos EUA, agravada pelo consumo intensivo em conflitos recentes, forçou o Pentágono a priorizar suas próprias demandas, deixando aliados europeus em uma posição de vulnerabilidade estratégica.
O plano de quatro frentes de Berlim não descarta totalmente os sistemas americanos, mas estabelece um cronograma paralelo para tecnologias alternativas. Enquanto o sistema Typhon, capaz de disparar Tomahawks, permanece como uma meta de longo prazo, a urgência de uma capacidade operacional para 2027 obriga o governo a olhar para empresas menores, que oferecem soluções mais rápidas e menos burocráticas do que os grandes conglomerados tradicionais de defesa.
O modelo ágil de startups
O interesse em empresas como a Fire Point, da Ucrânia, e a Covenant, com sede entre Israel e Estados Unidos, sinaliza uma transição no ecossistema de defesa. A Fire Point, em particular, traz a vantagem de tecnologias testadas no campo de batalha. O míssil FP-5 Flamingo, com alcance de 3.000 quilômetros, exemplifica a capacidade de inovação rápida sob pressão, apresentando um custo unitário significativamente menor — cerca de um quinto do valor de um Tomahawk.
Para a Alemanha, a fórmula de sucesso envolve parcerias entre essas startups e fabricantes locais, como a Diehl Defence. Essa colaboração visa integrar a agilidade tecnológica ucraniana com a robustez industrial alemã, permitindo que sistemas inovadores passem pelo rigoroso processo de certificação do Bundeswehr. A estratégia é criar um arsenal em camadas, onde mísseis de alto custo convivem com sistemas de saturação, projetados para sobrecarregar defesas inimigas por meio de ataques em massa.
Implicações para o mercado e aliados
Esta movimentação coloca uma pressão inédita sobre a cadeia de suprimentos da OTAN. Ao buscar fornecedores fora do eixo tradicional, Berlim envia um sinal claro aos reguladores e concorrentes: a soberania europeia não pode depender exclusivamente da agenda política de Washington. A participação de fundos de venture capital de peso, como Founders Fund e Andreessen Horowitz, na Covenant, também indica que o capital privado está encontrando na defesa um novo e lucrativo horizonte de investimentos.
Para o ecossistema brasileiro de defesa, o movimento alemão oferece um paralelo sobre a importância de fomentar tecnologias de dupla finalidade e reduzir a dependência de importações críticas. A necessidade de desenvolver cadeias de suprimentos soberanas é uma lição que a Alemanha tenta aplicar agora, sob o risco de ficar desguarnecida em um cenário de rápida deterioração da segurança no continente europeu.
O futuro da dissuasão europeia
O sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de Berlim em superar obstáculos burocráticos e restrições de exportação que ainda cercam tecnologias desenvolvidas em zonas de conflito. A viabilidade de integrar sistemas como o Flamingo em uma estrutura institucional rígida como a alemã permanece como uma interrogação aberta para analistas do setor.
O mercado observará atentamente os testes previstos para os próximos meses e a evolução das negociações de produção conjunta. Se o modelo alemão de diversificação for bem-sucedido, ele poderá servir como um novo paradigma para nações europeias que buscam equilibrar a parceria transatlântica com a necessidade de autossuficiência militar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





