O fascínio de Amanda Kramer reside nas formas estranhas e muitas vezes cômicas como performamos nossa própria existência. Sua mais recente obra, "By Design", que finalmente chega ao Reino Unido, mergulha nessa curiosidade no reino dos objetos. A trama acompanha uma mulher, interpretada por Juliette Lewis, que anseia desesperadamente por trocar de corpo com uma cadeira de madeira. O filme levanta questões sobre obsessão, imitação e objetificação, explorando um desejo que foge das narrativas convencionais de troca de corpos, que Kramer descreve como excessivamente cristãs em sua estrutura de aprendizado e retorno à identidade original. "Por que não querer ser algo diferente, apenas querer continuar sendo algo diferente?", questiona a cineasta, sugerindo um anseio por férias da própria complexidade humana.
O anseio por ser objeto
A cineasta vê a troca de corpos não como uma lição de apreço pela vida própria, mas como uma fuga. "Estamos sempre trocando de corpos com outras pessoas. Por quê? Outras pessoas têm os mesmos problemas que nós, basicamente", reflete Kramer. Em "By Design", essa busca por uma nova forma se manifesta no desejo de se tornar um objeto inanimado, uma cadeira. Essa escolha é uma homenagem à forma como amamos nossos pertences, muitas vezes com mais simplicidade e menos complexidade do que as relações humanas. Kramer aponta para a ideia de que, para uma mulher, ser comparada a móveis — seja literal ou conceitualmente — é uma tensão constante. "Casadas no século 20 provavelmente sentiam: ‘Eu sou a personificação do meu aspirador [de pó]. Eu sou apenas um aspirador. Eu sou apenas uma mesa’", observa. Essa sensação de ser um instrumento, de existir para ser usado, ressoa profundamente na personagem Camille, que deseja a clareza e o propósito de ser uma cadeira: ser necessária, ser útil, sem a pressão de ser uma "pessoa brilhante".
Beleza, medo e a performance feminina
Kramer explora a ideia de que a beleza, especialmente a feminina, carrega consigo um fardo. Ela relata uma amiga de infância cuja beleza poética era tão avassaladora que o mundo projetava expectativas excessivas sobre ela. "Ela sempre dizia: ‘Eu queria ser como você’", lembra Kramer, e a cineasta compreendia o desejo implícito de "a simplicidade de ser menos bonita". Essa reflexão se manifesta em Camille: "Se eu quisesse ser a coisa mais bonita da sala, eu provavelmente não quereria ser a mulher mais bonita. Eu preferiria ser a pintura mais bonita. Eu preferiria ser a árvore mais bonita no parque. Há menos medo". Ser uma mulher bonita, no entanto, vem com seu próprio conjunto de medos e projeções, algo que Kramer aborda sem julgamento, mas com uma observação perspicaz sobre a pressão social. A beleza no filme é apresentada de forma multifacetada, não condenada, mas explorada como um elemento que, como uma cadeira, pode convidar ao conforto e ao uso, mas também carregar uma carga de expectativa.
A materialidade do cinema e do mobiliário
A relação entre design de móveis e cinema como formas de arranjar corpos e atenção no espaço é um ponto central para Kramer. Ela anseia pela "elementalidade, sensualidade e organicidade" do material, algo que sente faltar no cinema. "Filmmaking não é uma arte de toque", compara. Os marceneiros, em sua visão, estão mais em contato com seus corpos e, portanto, com os objetos que criam, tornando sua arte mais "orgiástica" do que o cinema, que, apesar de suas imagens sedutoras, é mais "manejado". O ato de tocar e moldar o material, para Kramer, confere ao objeto a energia do criador, uma imersão que ela busca em sua própria arte. A disposição de móveis em espaços, seja em casas ou vitrines, é vista como uma forma de teatro, uma expressão de como projetamos nossas vidas. Uma cadeira, ela nota, sugere a presença de uma pessoa, um local para descanso e contemplação, convidando à quietude em um mundo em constante movimento. Essa materialidade e a intenção por trás da criação contrastam com o processo colaborativo e multifacetado do cinema.
Identidade como imitação e o legado de Joanna Hogg
A descoberta de si mesmo através da imitação é um tema recorrente no trabalho de Kramer. "Acho que pode ser comprada e vendida. Acho que pode ser agarrada, esculpida, alucinada", diz ela sobre a identidade. Desde a infância, somos moldados por influências externas, e a busca por um "eu puro" torna-se um desafio. Criamos identidades e personas, muitas vezes aliando-nos a outras, replicando estilos de vida e aspirações. "Se formos bons na imitação, nos tornamos esse tipo de pessoa", afirma Kramer, sugerindo que a transferência de personalidade é uma escolha para muitos, um ato de "apropriação" que define grande parte da existência moderna. A cineasta cita Joanna Hogg, particularmente seu curta "Caprice", como uma influência seminal. A beleza e a jornada emocional presentes nas obras de Hogg a intimidam e inspiram, representando uma "perfeição performática" que ela admira profundamente. Trabalhar com Juliette Lewis, que se entrega a essa performance de forma tão crua, e com o lendário Udo Kier, que traz sua própria mitologia e intensidade para o set, são exemplos de como Kramer busca capturar essa complexidade e profundidade em suas criações, convidando o espectador a refletir sobre o que significa ser, e o que significa desejar ser, outra coisa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





