O verde vibrante do gramado, o grito da torcida ecoando pelas arquibancadas, a disputa acirrada por um título. Para muitos, o Club América é a personificação dessas paixões. Mas, para além dos 90 minutos de jogo, as Águilas se tornaram um complexo organismo financeiro, um negócio avaliado em aproximadamente 1 bilhão de dólares que transcende o esporte. A trajetória do América é uma fascinante narrativa de como um clube de futebol, nascido da iniciativa de dois garotos de 13 anos, se metamorfoseou em um ativo estratégico para a poderosa família Azcárraga e para o mercado de capitais mexicano.

A história do América não começou com os Azcárraga. Em 1916, Rafael Garza Gutiérrez e Germán Núñez Cortina, ainda adolescentes, reuniram colegas do Colegio Mascarones para dar vida ao Récord. A camisa creme e o calção azul marinho, inspirados no uniforme de Garza Gutiérrez, tornaram-se as cores icônicas. Uma fusão com o Colón e a proposta de Pedro “Cheto” Quintanilla batizaram o time de América, em alusão à data da chegada de Cristóbal Colón. Por décadas, o clube navegou em águas turbulentas, enfrentando crises financeiras que, nos anos 50, levaram à nomeação do comediante Mario Moreno, o Cantinflas, como presidente honorário em uma tentativa de angariar fundos. A virada de chave ocorreu em 22 de julho de 1959, quando Isaac Bessudo vendeu o América a Emilio Azcárraga Milmo, magnata por trás do Telesistema Mexicano, precursor da Televisa. "Eu não sei nada de futebol, mas sei de negócios e vou transformar o América em um negócio bem administrado e reditável", prometeu Milmo, sinalizando o início de uma nova era.

A Visão Empresarial dos Azcárraga

A chegada de Emilio Azcárraga Milmo não foi apenas uma mudança de proprietário, mas uma redefinição do propósito do clube. A visão empresarial de Milmo transformou o América em um projeto de rentabilidade. Ele deliberadamente posicionou o clube como o antagonista dos populares Chivas de Guadalajara, que jogavam apenas com mexicanos, investindo em estrelas estrangeiras para criar um espetáculo de contrastes. Essa estratégia de "vilão" gerou rivalidade e atraiu atenção midiática, um ingrediente fundamental para o plano de Milmo. A simbiose com a televisão, através de sua própria empresa, Telesistema Mexicano (depois Televisa), foi crucial. Os direitos de transmissão exclusivos conferiram ao América uma exposição sem precedentes, fortalecendo seu valor comercial e sua capacidade de atrair patrocinadores. A profissionalização, liderada por Guillermo Cañedo de la Bárcena, consolidou o clube como potência, acumulando títulos e fortalecendo sua marca.

O Legado de Milmo e a Era Jean

A construção do icônico Estadio Azteca em 1966 não foi apenas um marco arquitetônico, mas uma expansão das fronteiras comerciais do clube. O estádio não só deu uma casa ao América, mas abriu portas para eventos de grande porte e para a exploração da marca em novas frentes. A identidade visual também foi aprimorada; em 1981, sob a presidência de Emilio Díez Barroso, o uniforme ganhou um amarelo mais intenso e o apelido "Águilas del América" foi oficializado, criando uma imagem mais forte para a projeção comercial. Após a morte de Emilio Azcárraga Milmo em 1997, seu filho, Emilio Azcárraga Jean, herdou não apenas o controle da Televisa, mas também a presidência do América. Sob sua liderança, o clube aprofundou seu modelo de negócios, com ênfase em marca, patrocínios e expansão de divisões, incluindo o sucesso do América Femenil e o fortalecimento das categorias de base. A recuperação esportiva, com títulos a partir de 2002, manteve o clube em alta, sustentando seu apelo comercial e sua audiência.

Ollamani e a Entrada na Bolsa

A reestruturação mais significativa ocorreu em 2024, quando o América, juntamente com o Estadio Azteca e outros negócios, foi transferido da estrutura direta do Grupo Televisa para a Ollamani, uma nova empresa criada para gerir esses ativos de forma independente. Essa cisão visava dar maior autonomia operacional e financeira a cada unidade de negócio. Emilio Azcárraga Jean assumiu a presidência do Conselho de Administração da Ollamani. A novidade mais impactante foi a estreia da Ollamani na Bolsa Mexicana de Valores em fevereiro de 2024, sob o ticker AGUILAS.CPOs. O América se tornou, assim, o primeiro clube mexicano a ter sua empresa-mãe negociada publicamente, permitindo que investidores participassem de seu desempenho financeiro. Essa incursão no mercado de capitais coincidiu com um período de glória esportiva, com conquistas de campeonatos que reforçaram o valor da marca.

O Futuro Multibilionário e as Perguntas em Aberto

Em dezembro de 2025, a Ollamani anunciou uma aliança estratégica com o fundo de investimento americano General Atlantic, que adquiriu 49% do Grupo Águilas por US$ 490 milhões. A transação avaliou o Grupo Águilas, que inclui o América (masculino e feminino) e o Estadio Azteca (agora Estadio Banorte, após financiamento para renovação), em US$ 1 bilhão. A Ollamani manteve o controle majoritário (51%) e a presidência executiva do Grupo Águilas ficou com Emilio Azcárraga Jean. A parceria com General Atlantic visa atrair investimentos sem ceder o controle, enquanto a colaboração com Kraft Analytics Group (KAGR) busca monetizar os mais de 45 milhões de seguidores do clube nos EUA e México através de análise de dados para otimizar experiências e receitas. O desafio agora é converter essa vasta base de fãs em fluxos de receita sustentados e manter a relevância esportiva. Com o América sem um título de liga desde o Apertura 2024, a pressão é dupla: conquistar vitórias em campo e justificar o vultoso investimento no mercado. Será que a máquina de negócios dos Azcárraga conseguirá sustentar o brilho das Águilas, mesmo em jejum de campeonatos?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX