O som das ondas quebrando na costa da Ilha de Jeju é o pano de fundo para uma vida que Kylie Genter jamais imaginou. Formada em comunicação pela SUNY Oswego, ela desembarcou na Coreia do Sul aos 22 anos com um diploma, mas sem um plano de carreira claro. A ideia inicial era ensinar inglês, uma porta de entrada comum para jovens estrangeiros no país. Contudo, o destino a levou por um caminho muito mais incomum e profundamente enraizado na cultura local: o universo das Haenyeo, as lendárias mergulhadoras que colhem frutos do mar sem equipamentos modernos.

Um novo horizonte em Jeju

Após quatro anos lecionando, Genter ouviu falar das Haenyeo, mulheres que sustentam suas famílias há gerações através de um mergulho livre e extenuante. Fascinada pela resiliência e pela conexão com o oceano, ela buscou aulas de mergulho em 2018, alimentando a esperança de um dia se juntar a elas. A oportunidade surgiu em 2024, quando uma pequena vila em Jeju buscava novos membros para seu coletivo de mergulhadoras. Com a idade média das integrantes beirando os 70 e 80 anos, a chegada de uma estrangeira de 36 anos foi recebida com surpresa, mas eventualmente, com aceitação. O processo para obter a licença de Haenyeo foi rigoroso: 50 dias de mergulho em um ano, venda de aproximadamente US$ 884 em pescado e, crucialmente, um voto unânime das mergulhadoras da vila. Foram dois anos de treinamento e adaptação.

A vida de uma Haenyeo

A rotina de Genter agora é ditada pelo mar e pelas suas colegas de mergulho, muitas das quais são as mais velhas de suas famílias. "A linguagem foi um problema; apesar de ter passado anos no país, eu ainda não conseguia entender tudo o que acontecia", relata. Sua força física, no entanto, se tornou um trunfo, auxiliando as mergulhadoras mais velhas a carregar redes pesadas e em outras tarefas. O trabalho é fisicamente desgastante e exige atenção à saúde: um resfriado ou congestão nasal pode impedir o mergulho devido à dificuldade de equalizar a pressão subaquática. A dedicação é total, com mergulhos que podem durar de duas a cinco horas, cinco dias por semana, dependendo das condições climáticas.

Um estilo de vida alternativo

Longe de ser apenas uma fonte de renda, o mergulho se tornou um pilar de um estilo de vida alternativo. Genter, que também administra um hotel para pets com o marido e ocasionalmente dá aulas, valoriza a flexibilidade e a autonomia que seu trabalho proporciona. "Eu não preciso de permissão para uma folga ou um dia de descanso", afirma. Embora o ensino ofereça maior estabilidade financeira, o ganho anual como Haenyeo, em torno de US$ 2.000, é secundário à satisfação encontrada. "Quando estou mergulhando, nada mais importa. Tenho que me concentrar em mergulhar e capturar frutos do mar. Ninguém pode me ligar. Não preciso olhar para o meu telefone e perder tempo com 'doomscrolling'", descreve. O ato de mergulhar, especialmente em dias calmos, torna-se meditativo, um refúgio do mundo exterior.

Perspectivas sob o mar

Com a sensação de estar "casada com esta vila para o resto da vida", Kylie Genter encontrou em Jeju um senso de pertencimento e propósito. A tradição das Haenyeo, que enfrenta o desafio de manter suas praticantes e a herança cultural viva em um mundo em rápida mudança, ganha uma nova guardiã em uma americana que decidiu apostar em um futuro longe do convencional. A imagem de Genter, imersa nas águas frias da Coreia do Sul, aprendendo com as matriarcas do oceano, é um testemunho da busca humana por significado e conexão, mesmo nos cantos mais inesperados do globo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider