Samir Bantal, diretor do estúdio de pesquisa e design AMO, do escritório OMA, apresentou recentemente uma intervenção artística que desafia a percepção sobre o consumo cotidiano. A exposição, batizada de 'Il Sonno', recria um supermercado funcional onde cada prateleira e produto — de embalagens de snacks a itens de mercearia — foi esculpido inteiramente em rochas naturais como mármore, ônix, quartzito, granito e travertino. A instalação, que ocupou um espaço durante a última Milan Design Week, funcionou como uma réplica precisa de um ambiente comercial, completa com iluminação fluorescente, música ambiente e um layout de corredores que mimetiza a experiência de compra real, porém, com uma materialidade estática e permanente.

A materialidade como crítica ao consumo

A escolha do material não é fortuita. Segundo a visão de Bantal, o projeto busca transformar o ato de comprar, frequentemente visto como uma ação mecânica e reflexiva, em um momento de contemplação. Ao congelar itens de consumo em pedra, o estúdio retira a função utilitária desses objetos, forçando o observador a encarar a forma e a matéria em vez da necessidade imediata. A leitura editorial aqui é que o projeto atua como uma antítese à cultura da descartabilidade, onde a rapidez da cadeia de suprimentos moderna é substituída pela imobilidade da rocha, transformando commodities em objetos de design contemplativo.

O papel da longevidade no design

David Mahyari, fundador da SolidNature, a marca de pedras naturais que comissionou a obra, estende o argumento para além da estética. Para Mahyari, a introdução de materiais como o mármore em formas de objetos de consumo serve para questionar os sistemas atuais baseados na velocidade e na obsolescência programada. A proposta é que, ao trazer a durabilidade e a autenticidade da pedra para o centro do debate sobre consumo, o design pode incentivar uma consciência maior sobre a origem e a vida útil dos objetos que cercam o dia a dia contemporâneo, alinhando a estética a uma visão de futuro mais sustentável.

Implicações para o mercado de luxo

A transição de objetos de consumo de massa para itens de luxo esculpidos em pedra natural sugere uma mudança na forma como marcas de design de alto padrão se posicionam frente ao mercado. Ao transformar itens banais em peças de arte, a SolidNature cria um novo nicho de mercado onde o valor não reside na utilidade do objeto, mas na sua singularidade e permanência. Esse movimento atrai colecionadores e entusiastas que buscam peças de design que carregam consigo uma narrativa sobre a sustentabilidade e o valor dos materiais, desafiando concorrentes a repensarem o ciclo de vida de suas coleções.

O que resta após a instalação

Embora a exposição física em Milão tenha sido encerrada, as peças continuam disponíveis para aquisição através da SolidNature. Resta saber se esse tipo de intervenção artística conseguirá influenciar de forma duradoura as práticas de consumo ou se permanecerá restrita ao circuito de colecionadores de arte e design. A curiosidade sobre o impacto dessa transição, de um item de prateleira para uma peça de pedra, permanece como um ponto de observação para o mercado de luxo global.

O projeto 'Il Sonno' não entrega respostas definitivas sobre o futuro do consumo, mas abre um diálogo necessário sobre a materialidade em um mundo cada vez mais digital e efêmero. A permanência da pedra diante da volatilidade das prateleiras de um supermercado comum coloca em perspectiva o que realmente valorizamos em nossa rotina.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast