A imagem era insustentável: de um lado, uma coleção de modelos raros da Mercedes-Benz; do outro, um pallet de tomates podres vazando suco pela rua. Para o colecionador Scott Cunningham, que guardava seus carros em galpões comerciais convencionais, aquele foi o ponto de inflexão. “Não funciona”, pensou ele, segundo uma reportagem do Business Insider. Aquele contraste ilustra um dilema específico dos ultrarricos: o que fazer quando a paixão por objetos grandes e valiosos extrapola os limites da residência?
Para entusiastas como Cunningham, cujas coleções de Ferraris, Porsches e superbikes podem valer milhões, esconder os veículos em casa ou em um depósito comum é um contrassenso. O hobby, afinal, é feito para ser compartilhado. A solução veio da observação de um hangar privado de um amigo piloto, transformado em um bar com memorabilia. Cunningham percebeu que o que faltava era a sensação de um clube exclusivo. Assim nasceu o The Hangar Group, em 2019, na Flórida. Unidades de até 4.500 pés quadrados foram vendidas por cerca de US$ 800 por pé quadrado, criando não apenas garagens, mas espaços de convivência.
O clube da garagem
O fenômeno não é isolado. Em Nevada, perto de Las Vegas, o The Stacks Auto Lofts prepara-se para abrir, com unidades que chegam a custar US$ 1,6 milhão. A lógica, como resume Cunningham, é simples: “Esses caras ficam sem espaço antes de ficarem sem dinheiro”. O apelo transcende o metro quadrado. Trata-se de liberar a casa de uma coleção que, nas palavras de outro desenvolvedor, “pode tomar conta de tudo”, e encontrar uma comunidade de pares. O bônus inesperado, segundo os proprietários, foi o aspecto social. São espaços onde executivos e empresários se encontram como entusiastas, sem a pressão de uma troca de cartões de visita.
O carro na sala de estar
Existe, contudo, uma filosofia oposta, que prefere a integração total do automóvel ao lar. Gil Dezer, presidente da Dezer Development, é o arquiteto por trás do “Dezervator”, um elevador patenteado que transporta o carro do proprietário diretamente para dentro de seu apartamento na Porsche Design Tower, em Miami. Para ele, a coleção deve estar sempre à vista. “Se você coloca os carros em outra garagem, no primeiro mês você os visita toda semana, depois a cada duas semanas, e logo você não vai mais lá”, argumenta Dezer. A máquina se torna uma escultura funcional, uma peça central na sala de estar, visível para todos os convidados.
A tensão entre os dois modelos — o clube social externo e o santuário doméstico — revela a natureza dual do colecionismo de luxo. É sobre posse ou sobre pertencimento? É um ativo para ser admirado em privado ou um passaporte para uma comunidade exclusiva? Como observou um dos entrevistados, colecionar carros é muito mais complexo do que colecionar selos. A questão que permanece é se o valor está no objeto em si ou no mundo que se constrói ao seu redor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





