A certificadora Bureau Veritas lançou no Reino Unido um novo padrão para validar as credenciais de sustentabilidade de edifícios, o UK Net Zero Carbon Buildings Standard. A iniciativa voluntária visa criar uma régua única para o mercado imobiliário e combater o “greenwashing”, verificando alegações de “carbono zero” com base em dados de performance real, e não apenas em projeções de projeto.

O ponto central da nova certificação, segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Dezeen, é a mudança de paradigma: para obter o selo, um edifício precisa comprovar seu desempenho com base em 12 meses de dados de uso. A análise move o foco dos modelos teóricos, criados na fase de design, para a performance energética medida na prática, um dos pontos mais frágeis nas estratégias de descarbonização do setor.

Da promessa à performance

A grande lacuna no debate sobre edifícios sustentáveis reside, há anos, na diferença entre o desempenho projetado e o consumo real de energia. O novo padrão britânico ataca diretamente essa questão. Para ser verificado como “Net Zero Carbon Aligned”, um projeto — seja novo, existente ou um retrofit — deve eliminar o uso de combustíveis fósseis em suas instalações, gerar energia renovável no local e minimizar tanto o carbono incorporado nos materiais quanto o consumo de energia em uso.

Crucialmente, o uso de créditos de carbono para compensação (offsets) só é permitido para abater emissões residuais, e apenas depois que todos os requisitos mandatórios forem cumpridos. A leitura aqui é que a régua para o “net zero” está subindo. A estratégia força as construtoras e incorporadoras a resolverem os problemas de emissões na fonte, em vez de simplesmente comprar uma indulgência no mercado de carbono. Para o Brasil, onde selos como LEED e AQUA-HQE são referência, o movimento britânico serve como um sinal de que o futuro da certificação está na verificação contínua do desempenho.

Uma régua contra o 'greenwashing'

Ao estabelecer critérios claros e baseados em dados mensuráveis, a iniciativa cria um antídoto para o marketing vago que domina parte do discurso de sustentabilidade no setor imobiliário. A verificação independente pela Bureau Veritas, uma empresa com quase 200 anos de atuação em inspeção e certificação, empresta a credibilidade necessária para que o selo se torne um diferencial competitivo.

Embora o padrão seja voluntário, a expectativa é que a demanda de investidores, locatários e reguladores transforme a verificação em um pré-requisito para ativos imobiliários de primeira linha. O movimento sugere uma maturação do mercado, onde alegações de sustentabilidade precisarão ser lastreadas em evidências robustas. Como afirmou Antoine Giros, vice-presidente da Bureau Veritas, a mudança é “pivotal”, deslocando a indústria de “resultados previstos para um desempenho em uso medido e verificado de forma independente”.

O sucesso do padrão dependerá de sua taxa de adoção, mas ele já estabelece um novo norte. A questão que ele levanta é universal: como garantir que a sustentabilidade prometida no papel se materialize em tijolo e concreto? A resposta, ao que parece, está na medição contínua e na validação por terceiros.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen Architecture