O que é antiblackness?

O conceito de "antiblackness", apresentado em "Thinking from Black: A Lexicon" pelo Practicing Refusal Collective, descreve um fenômeno complexo que transcende a mera discriminação racial. Ele se refere a um conjunto de relações e forças — sociais, políticas, institucionais e metafísicas — que marcam a negritude como o ponto mais baixo de qualidades sub-humanas ou não humanas. Essa violência é descrita como inescapável, global e pervasiva, semelhante ao ar que respiramos. A escravidão e o colonialismo foram os marcos iniciais que introduziram o antiblackness na modernidade, utilizando a violência para reproduzir a cativeira negra como algo corriqueiro e desprovido de significado.

Ao contrário do racismo, que pode pressupor um desalinhamento entre crenças e ações e a realidade, o antiblackness insiste na ideia de que a verdade da negritude é intrinsecamente definida por uma intrusão violenta. Ele se recusa a aceitar as narrativas de progresso liberal, mesmo diante de avanços sociais e políticos, como a emancipação formal, revoluções decoloniais, aquisição de direitos e a ascensão de corpos negros a posições de poder. O conceito ressalta como, independentemente de diferenças subjetivas como idade, classe, gênero, sexualidade, deficiência ou origem nacional, a negritude está excessivamente exposta à violação.

A manifestação da violência sistêmica

A experiência pessoal da autora com uma vizinha em 2020, após o assassinato de George Floyd, ilustra a natureza insidiosa do antiblackness. A vizinha, buscando um "transplante de coração" para o país e mencionando o filho da autora em um contexto de luto, demonstra uma incapacidade de compreender a realidade vivida por pessoas negras. A oferta de amizade e a mensagem "Black Lives Matter!" escritas em um cartão, após dois anos de convivência sem contato, revelam uma busca por "catarse racial branca" em vez de uma conexão genuína. A autora rejeita essa oferta, percebendo-a como uma manifestação de antiblackness, onde a dor de um filho negro é considerada "não notável" e a violência contra ele é tratada como um mero incidente.

Essa situação levanta a questão ética sobre as condições que moldam as ações e sentimentos. O antiblackness, nesse contexto, é a avaliação da ação imposta sobre pessoas negras, questionando a profundidade do corte que a sociedade pode infligir. Embora as respostas individuais à violência do antiblackness variem, o foco analítico reside na articulação de uma relação violenta que é tão fundamental para a lógica e a própria vida que a possibilidade da morte de uma criança negra se torna banal. A centralidade da criança negra na narrativa da morte é uma característica marcante do antiblackness, que não poupa nenhuma classe protegida.

O reflexo da criança negra na precariedade da vida negra

A situação da criança negra expõe a precariedade de toda a vida negra. As mortes espetaculares de pessoas negras revelam a superfície do que é vivido cotidianamente e muitas vezes ignorado. O bombardeio da 16th Street Baptist Church em 1963, que matou quatro meninas negras, e o assassinato de Emmett Till, exibido em caixão aberto por sua mãe, Mamie Till-Mobley, são exemplos históricos de como o antiblackness coloca crianças negras na beira da morte. Mais recentemente, o assassinato de Trayvon Martin, cuja inscrição "Black Lives Matter" apareceu no cartão da vizinha da autora, catalisou o movimento homônimo. No entanto, o sofrimento de Martin, como todo sofrimento reproduzido pelo antiblackness, carece de um consenso sobre seu significado.

O assassinato de crianças negras em circunstâncias onde as pessoas "disputam" se esses foram assassinatos justificáveis exige uma compreensão complexa de arranjos violentos históricos, sociais, íntimos e perversos. A exibição espetacular da criança negra morta individualmente não é uma exposição anômala; ao contrário, a criança negra simboliza o domínio de forças ilógicas. O que acontece com as crianças negras é um vislumbre do terror e da assombração da existência negra. O antiblackness como teorema abarca as crianças que morreram em navios negreiros, os bebês negros retirados à força de suas mães escravizadas, as mortes negras que ocorrem durante a gravidez, o parto e o pós-parto, as crianças negras roubadas e desaparecidas na modernidade, e os futuros negros que nunca chegaram a existir.

Perguntas em aberto e o que observar

O conceito de antiblackness nos força a confrontar a persistência de uma violência que não se limita a atos individuais de racismo, mas que está profundamente enraizada nas estruturas sociais, históricas e culturais globais. A banalização da violência contra corpos negros, especialmente os de crianças, é um sintoma dessa estrutura. A dificuldade em alcançar um consenso sobre o significado dessas mortes e sofrimentos sublinha a complexidade do antiblackness e sua recusa em se encaixar em narrativas simplistas de progresso.

Observar como o conceito de antiblackness é aplicado e expandido em análises futuras será crucial. A forma como ele dialoga com outras formas de opressão e como as experiências diversas dentro da negritude são abordadas por essa lente analítica são questões em aberto. A persistência dessa violência, mesmo em contextos de avanços legais e sociais, exige uma vigilância contínua e uma reavaliação constante das estruturas que a perpetuam. A busca por entender e desmantelar o antiblackness é um caminho longo, que requer a valorização de narrativas e experiências que foram historicamente marginalizadas e silenciadas.

A análise do antiblackness, portanto, não oferece um fim, mas sim um convite para uma compreensão mais profunda e crítica das violências que moldam a experiência negra. A jornada para desmantelar essa estrutura de ódio e desumanização é contínua e exige um compromisso coletivo com a justiça e a equidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub