O estúdio local António Bessa Cruz Architects (ABCA) concluiu recentemente a Agramonte House, uma residência que reinterpreta o passado industrial de um terreno no Porto. Localizado ao lado do Cemitério de Agramonte, o lote abrigava anteriormente uma oficina de reparos automotivos que, inicialmente, o cliente pretendia converter em um loft. Contudo, a precariedade estrutural da edificação original inviabilizou a reabilitação, orientando uma abordagem de nova construção que preservasse a essência do lugar.

Segundo o estúdio, o projeto buscou equilibrar o desejo do cliente por uma estética de loft com as limitações físicas do terreno. A solução arquitetônica priorizou a entrada de luz natural e a criação de espaços amplos, mantendo uma conexão visual controlada com o entorno imediato, especialmente em relação ao cemitério vizinho. A materialidade, composta por concreto aparente, tijolos maciços e aço, consolida uma atmosfera fabril adaptada ao uso residencial.

A materialidade como narrativa industrial

A escolha dos materiais não é meramente decorativa, mas uma resposta direta à história do terreno. O uso de concreto aparente e divisórias de aço e vidro evoca a linguagem das antigas oficinas que caracterizavam a zona industrial da cidade. A paleta de cores mais sóbria, reforçada pelo uso de carvalho escuro nos armários, confere densidade aos interiores, enquanto as paredes de tijolo e blocos de concreto adicionam textura e robustez, remetendo à construção original.

O layout em L foi a estratégia central para garantir a privacidade dos moradores. Com uma fachada quase cega para a rua, a casa se protege do ruído urbano e da proximidade com o cemitério. A luz natural é captada por janelas em nível superior e por grandes painéis envidraçados voltados a pátios internos pavimentados, permitindo banhar as áreas sociais sem comprometer o isolamento visual da residência.

Mecanismos de luz e circulação

A organização espacial da Agramonte House privilegia a fluidez entre ambientes. O núcleo da casa — sala de estar, jantar e cozinha — funciona como um pulmão luminoso, flanqueado por estruturas metálicas que se conectam aos pátios. Uma escadaria de concreto, iluminada por janelas de clerestório, atua como elemento escultural e organiza a transição entre níveis, reforçando o caráter monumental do vocabulário industrial.

Nos quartos, a transição de materiais é sutil: paredes de tijolo pintado de branco e blocos maiores substituem o concreto aparente do térreo, criando uma atmosfera mais íntima. A marcenaria sob medida em carvalho escuro, presente no quarto principal e em áreas de armazenamento, suaviza a aspereza dos elementos estruturais, contrapondo o peso do concreto ao calor da madeira.

Tensões do design urbano no Porto

O projeto ilustra um desafio recorrente na arquitetura contemporânea do Porto: a reconversão de espaços industriais obsoletos em habitações de alta qualidade. O trabalho do ABCA não tenta esconder a natureza industrial do lugar; ao contrário, integra-a como valor estético. A relação com o entorno, marcada pela presença do cemitério, motivou uma solução de pátios internos que pode servir de referência para futuras intervenções em lotes densos e confinados.

O mercado imobiliário local, que tem visto a valorização de armazéns e oficinas, encontra aqui um exemplo de que a demolição seguida de nova construção, quando executadas com sensibilidade, podem preservar a identidade urbana. Em paralelo a outras abordagens vistas na cidade — como intervenções de estúdios como Fala Atelier ou obras de Álvaro Siza —, a Agramonte House soma-se a um momento de exploração criativa sobre como concreto e aço podem informar novas formas de morar.

Perspectivas de reabilitação urbana

Resta a questão de até que ponto a estética industrial, hoje valorizada pelo mercado de alto padrão, continuará a orientar a abordagem ao patrimônio fabril menor. A Agramonte House é uma resposta bem-sucedida, mas levanta dúvidas sobre a viabilidade econômica em larga escala, dado o custo de materiais de maior desempenho e da construção nova, o que pode limitar o acesso a esse tipo de habitação.

Observar como esses espaços serão apropriados nas próximas décadas será fundamental para entender a evolução do tecido urbano da cidade. A flexibilidade do layout e a durabilidade dos materiais sugerem uma aposta na longevidade da construção, indo além de uma tendência estética e tocando na sustentabilidade da reocupação urbana.

Ao transformar uma oficina inabitável em residência privada, o estúdio não apenas atendeu à demanda do cliente, mas também reconfigurou a percepção de um espaço antes industrial, mantendo a integridade material que define a identidade daquela parcela específica do Porto.

Com reportagem de Dezeen (https://www.dezeen.com/2026/05/12/antonio-bessa-cruz-architects-agramonte-house/)

Source · Dezeen