O designer industrial Jasper Morrison, um dos nomes mais influentes do setor, aponta o ressurgimento do artesanato como uma resposta pragmática à escassez de oportunidades comerciais para novos talentos. Em entrevista recente, o criador britânico observa que a crescente aposta em peças exclusivas e técnicas experimentais reflete um cenário de mercado onde as grandes parcerias industriais tornaram-se cada vez mais raras.
Para Morrison, esse movimento possui ecos da cena londrina do início dos anos 1980, período em que ele próprio iniciou sua trajetória. Segundo o designer, o cenário atual força os profissionais a reinventarem seus processos para viabilizar a produção, em um ciclo que ele descreve como um retorno necessário à autonomia produtiva.
O paralelo com os anos 80
Ao recordar o início de sua carreira, Morrison descreve uma rotina que define como uma "existência de motorista de táxi". Sem fabricantes dispostos a produzir suas criações, ele gerenciava sua própria microprodução, coordenando oficinas locais para peças distintas, como tampos de vidro e bases de mesas, que ele mesmo montava e entregava aos clientes.
Essa fase de autogestão foi, segundo o designer, uma forma de sobrevivência antes de conseguir estabelecer parcerias com marcas como Cappellini e Vitra. O paralelo com o presente é claro: a falta de escala industrial disponível para jovens designers hoje repete a dificuldade de acesso à infraestrutura de manufatura que ele enfrentou décadas atrás, tornando o artesanato uma via de escape inevitável.
A mudança no modelo de negócio
O mercado de design contemporâneo tem apresentado uma diversidade de técnicas manuais, utilizando materiais inusitados, como fibra de coco e crina de cavalo, em oposição ao modelo tradicional de licenciamento em larga escala. Morrison argumenta que, diante da impossibilidade de as grandes empresas trabalharem com todos os novos talentos, a produção bespoke surgiu como a alternativa mais viável.
Essa dinâmica altera o papel do designer, que deixa de ser apenas o criador do conceito para se tornar o gestor de uma cadeia de suprimentos própria. Enquanto o licenciamento industrial, como em sua famosa Air-Chair, permitia focar estritamente no design, o modelo artesanal exige uma imersão profunda em logística e manufatura, um desafio que exige resiliência.
Tensões na indústria global
As implicações desse cenário são sentidas tanto por reguladores do mercado quanto por novos profissionais. A falta de conexões entre jovens talentos e fabricantes consolidados pode limitar a inovação em larga escala, enquanto o crescimento do setor artesanal cria um nicho de alto valor, porém com pouca capilaridade. A leitura é que o design corre o risco de se fragmentar entre uma produção de massa estagnada e um artesanato criativo, mas de difícil escalabilidade.
Para o ecossistema brasileiro, que possui uma forte tradição de design artesanal atrelada à indústria de mobiliário, o debate de Morrison oferece um insight valioso. A capacidade de integrar o saber-fazer manual à viabilidade comercial é um desafio constante, especialmente em momentos de retração econômica onde as parcerias industriais se tornam mais seletivas e cautelosas.
O futuro da prática criativa
O que permanece incerto é se esse modelo de "microprodução" será apenas uma fase de transição para jovens designers ou se ele se consolidará como uma nova forma de operar no mercado. A diversidade crescente de abordagens torna difícil prever uma tendência única, sugerindo que o futuro do setor será definido pela capacidade individual de cada profissional em criar o seu próprio nicho.
Morrison sugere que o melhor caminho para os novos talentos é focar no próprio trabalho, ignorando as pressões externas sobre o que o design deve ser. A observação de que o design se tornou algo muito diverso para ser resumido em uma única definição reforça a ideia de que a autonomia criativa continuará sendo o diferencial mais relevante nos próximos anos.
Com reportagem de Dezeen
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