Aos 92 anos, Nils Peterson se vê em uma praia metafórica, o náufrago de uma longa vida. A maior parte de seus companheiros de viagem já partiu. O que resta é contar a história. Inspirado pelo poema “Ítaca”, de Cavafy, que nos instrui a desejar uma jornada longa, “cheia de aventura, cheia de instrução”, Peterson faz um balanço de sua própria Odisseia. Ele admite que seu pensamento nem sempre foi “elevado” e, por isso, encontrou seus Ciclopes e seus Posêidons furiosos — monstros que, como ensina Cavafy, só encontramos se os carregarmos dentro da alma.

Para o poeta, a mitologia não é um artefato empoeirado, mas um mapa para a própria existência. A Odisseia é um repertório de imagens que o ajuda a se entender e a se explicar para os outros. Uma linha num quadro é “um ponto partindo em uma jornada”. O pincel de um artista é “um arco que ninguém mais consegue puxar”, uma alusão direta ao arco de Odisseu, que só ele foi capaz de armar ao retornar a Ítaca. A jornada do herói grego se torna, assim, uma linguagem para decodificar a vida.

A mitologia como mapa

Essa dependência dos mitos clássicos, no entanto, vem acompanhada de um temor. Peterson se pergunta por quanto tempo Homero ainda será reconhecido fora dos círculos acadêmicos. A perda das mitologias greco-romanas, que por séculos forneceram um “campo unificador de imagens e significados” para o Ocidente, é para ele um sintoma não apenas do rebaixamento geral das humanidades, mas de uma correção de curso: não é mais possível ser bem-educado sendo puramente eurocêntrico.

O dilema é que somos finitos. Não há “mundo e tempo suficientes” para abarcar tudo. Algo precisa ser perdido, substituído, esquecido. Mas a Odisseia? “Eu preciso dela”, escreve Peterson. A história oferece uma forma de ver, de entender, de falar sobre o mundo com uma riqueza que parece cada vez mais escassa. É a diferença entre a profundidade da linguagem e a superficialidade da imagem. Olhar não é ouvir, e a cultura dos emojis é, para ele, uma forma de evitar a palavra, de comunicar sem o esforço — e a identidade — do pensamento.

O olho contra o ouvido

A cultura digital, centrada no olho, ameaça a cultura literária, centrada no ouvido. Peterson teme o “leitor de olhos”, que busca fatos, em oposição ao “leitor de ouvidos”, que busca música no texto. É a diferença entre a inteligência artificial e o espírito. Ver Matt Damon na tela como um herói de ação é uma experiência; ler a Odisseia é outra. Uma nos distrai, a outra nos constitui. Se a história existir apenas na tela ou numa tese de doutorado, perde-se a conexão íntima, a centelha que salta quando se reconhece o arco de Odisseu no pincel de um artista.

Ao fim, Peterson retorna não ao fim da Odisseia, mas ao que vem depois. Odisseu ainda não terminou sua jornada. O profeta Tirésias o instruiu a realizar uma última viagem: caminhar terra adentro, com um remo ao ombro, até encontrar um povo que confunda o remo com uma pá de debulhar grãos. Ali, longe do mar, ele deveria fazer um sacrifício final a Poseidon. Para um poeta de 92 anos, o que significa essa tarefa? Talvez, ele sugere, seja escrever este ensaio. Um sacrifício jubiloso, em suas próprias palavras, para explicar a um mundo apressado o que ainda há de tão vital naquelas histórias antigas.

Com reportagem de Brazil Valley

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