Na agitada paisagem urbana de Nova York, onde cada esquina conta uma história e cada sombra esconde um segredo, a fotografia tem sido a lente através da qual muitos de nós aprendemos a ver e a sentir a cidade. A instalação inaugural na nova sede da Aperture, no Upper West Side, batizada de "Aperture Loves New York", é uma ode a essa relação intrínseca. A mostra presta uma homenagem aos fotógrafos que não apenas moldaram a imagem de Nova York, mas que, por sua vez, foram profundamente moldados por ela. Reunindo artistas que marcaram a história editorial da Aperture, a exposição entrelaça fotografias icônicas com os livros que as eternizaram, demonstrando como essas imagens avançaram a arte fotográfica e capturaram o espírito complexo e multifacetado da metrópole.
A curadoria de Sarah Meister, Diretora Executiva, abrange mais de vinte artistas, desde os pioneiros até os contemporâneos, incluindo nomes como Diane Arbus, Awol Erizku, Robert Frank, Justine Kurland, Stephen Shore, Tina Barney e Ernest Cole. Cada imagem é um portal para um fragmento de Nova York, um momento congelado no tempo que reflete as diversas realidades e as narrativas que compõem o tecido da cidade. A exposição não é apenas uma coleção de fotografias, mas um testemunho do poder da imagem em definir e redefinir nossa compreensão de um lugar, convidando o espectador a revisitar suas próprias memórias e percepções sobre a cidade que nunca dorme.
Um Espelho em Constante Reflexão
A obra de Tina Barney, "The Reception" (1985), exemplifica essa dualidade. Em um ambiente de salão ricamente decorado, figuras em trajes formais parecem participar de uma celebração. No entanto, seus olhares evasivos e a tensão sutil na composição sugerem um drama psicológico silencioso, uma hierarquia social velada por aparências polidas. Feita em uma Nova York dos anos 80, marcada pela ostentação e pela coreografia social, a fotografia de Barney transforma o privilégio em tema, e a ocasião aparentemente agradável em algo carregado e inquietante. Da mesma forma, Ernest Cole, em "Harlem" (ca. 1968), captura a energia vibrante da cidade em movimento. Duas mulheres caminham com passos firmes, seus rostos nítidos em contraste com o desfoque suave do tráfego e das vitrines. A imagem evoca a sensação de uma Nova York vivida intensamente, um lugar de pulsação pública e estilo. Cole, que fugiu da África do Sul para publicar seu devastador livro "House of Bondage", trouxe para suas lentes a vida negra na América, focando na dignidade e no teatro cotidiano das ruas, mesmo em meio às turbulências sociais da época.
O Cotidiano Elevado à Arte
Awol Erizku, em sua contribuição para "The New Yorker", foca em objetos que carregam peso histórico: três kufis desenhados por Ruth E. Carter para o filme "Malcolm X". Dispostos contra um fundo nebuloso, os chapéus adquirem ares de constelações, objetos cotidianos imbuídos de significado cultural e espiritual. Erizku transita com maestria entre comissões editoriais e práticas de estúdio, dialogando com formas artísticas, cultura pop e iconografia espiritual. Robert Frank, em uma imagem de 1955–65, transforma um canto de rua em um estudo de atitude. Jovens encostados em uma fachada, um sinal de "NÃO PERCA" ao fundo, e grades pontiagudas sugerem a constante sedução e o perigo inerente à cidade. Frank, com seu estilo inquieto e descentralizado, reimaginou a fotografia documental, focando em cenas do cotidiano que, em suas mãos, se tornavam retratos pungentes e não sentimentais do país. Nan Goldin, com "Trixie on the cot" (1979), mergulha na crueza da vida downtown. Sob uma luz dura, uma figura repousa em um traje de festa improvisado, o chão desordenado refletindo a atmosfera íntima e, por vezes, incompreensível para o observador externo. Goldin, fotografando de dentro de sua "família escolhida", capturou o desejo, a ternura e o colapso com uma imediatismo visceral.
Narrativas Urbanas em Transformação
Justine Kurland, em "Playground" (1998), eleva uma cena urbana comum a um momento cinematográfico. Um grupo de meninas em um parquinho, envoltas em suas próprias políticas de atenção e pertencimento, sugerem um mundo que elas controlam, mesmo sob o olhar alheio. A imagem, parte de sua série "Girl Pictures", subverte narrativas de aventura focadas em meninos, apresentando as meninas como um "exército em pé de fugitivas adolescentes em resistência aos ideais patriarcais". Danny Lyon, em "80 and 82 Beekman Street" (1967), documenta o Lower Manhattan em processo de esvaziamento. Fachadas de ferro fundido ainda imponentes, ruas amplas pela ausência, escombros nas bordas – a cena é um registro melancólico de uma cidade em transformação, capturando a destruição de edifícios históricos para dar lugar a novos projetos. Sophie Rivera, em "Waitress" (ca. 1978), apresenta uma servente de frente, o enquadramento apertado destacando seu uniforme como um traje. A expressão da retratada é profissional, reservada e um tanto cansada, transformando o trabalho cotidiano em um encontro direto e digno. Coreen Simpson, com "The Fantastic Four, Double Dutch Champions, Lincoln Center, NYC" (1980), captura quatro jovens campeãs com a força de uma unidade singular. O corda de pular atravessa a imagem, intensificando a composição. Os uniformes e a atitude desafiadora das meninas refletem a cultura jovem de Nova York, o orgulho e a disciplina, ao mesmo tempo que celebram a energia do hip-hop e a autoafirmação no espaço público.
A "Aperture Loves New York" é mais do que uma exposição; é um convite para refletir sobre como a fotografia, em suas diversas formas e intenções, constrói e reconstrói nossa percepção da cidade. Ao revisitar esses olhares que definiram Nova York, somos levados a questionar quais novas narrativas estão sendo forjadas hoje e quem são os artistas que as contarão. A exposição, que fica em cartaz até 1º de novembro de 2026, oferece um panorama rico e complexo, onde cada fotografia é uma peça de um quebra-cabeça maior, a eterna e mutável imagem de Nova York.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Aperture





