Uma operação de quatro meses liderada pelo grupo Arqueomallornauta concluiu com sucesso a extração do pecio romano de Ses Fontanelles, um navio mercante do século IV localizado a apenas 65 metros da praia de Can Pastilla, em Palma de Mallorca. O resgate, que exigiu um esforço técnico rigoroso para preservar a estrutura de madeira, marca um momento significativo para a arqueologia subaquática do Mediterrâneo.

Após a retirada, os restos da embarcação foram transferidos para o Castillo de San Carlos. O navio passará por um processo de dessalinização e conservação química no laboratório ARQVAtec, em Cartagena, para garantir que o achado seja preservado para estudos futuros. A partir de novembro, uma exposição no Centro Cultural la Misericordia apresentará os detalhes desta descoberta ao público.

Uma cápsula do tempo submersa

O achado ocorreu de forma fortuita em 2019, após tempestades removerem sedimentos marinhos e revelarem a estrutura a apenas dois metros e meio de profundidade. O navio, com 12 metros de comprimento, transportava mais de 300 ânforas contendo azeite, vinho e garum, um molho de peixe fermentado comum na dieta romana. A conservação excepcional do material permite uma análise detalhada das rotas comerciais que ligavam a região de Carthago Spartaria, atual Cartagena, ao restante do império.

O destaque científico reside nas quase 100 inscrições pintadas, conhecidas como tituli picti, encontradas nas ânforas. Esses rótulos fornecem dados sobre a fiscalidade, nomes de comerciantes e a organização dos escribas, oferecendo uma visão direta sobre a administração econômica da época. A presença de uma moeda cunhada em Siscia permitiu aos pesquisadores datar o naufrágio como posterior ao ano 320 d.C., conferindo precisão cronológica ao sítio.

Símbolos e vida cotidiana

O navio atua como um espelho da transição ideológica ocorrida no século IV. Entre os objetos recuperados, a coexistência de uma lamparina dedicada à deusa Diana e ânforas marcadas com o crismão cristão ilustra o sincretismo religioso do período. Essa dualidade simbólica reforça a importância do achado para a compreensão das transformações culturais que moldaram o Império Romano em sua fase final.

Além da carga comercial, a escavação revelou artefatos do cotidiano a bordo, como utensílios de cozinha norte-africanos, restos de cabos de linho, calçados de couro e esparto, e um taladro de arco utilizado em reparos navais. Este último item, sendo o primeiro de seu tipo identificado em território espanhol, oferece pistas sobre as tecnologias de manutenção marítima disponíveis aos marinheiros da Antiguidade.

Implicações para a arqueologia

A preservação integral do casco e da carga permite que historiadores investiguem não apenas a macroeconomia do Mediterrâneo, mas também os detalhes microeconômicos do transporte marítimo. A colaboração entre instituições como as universidades de Cádiz, Barcelona e das Ilhas Baleares demonstra a importância da cooperação acadêmica em projetos de arqueologia subaquática de alta complexidade.

Para o ecossistema de pesquisa, o caso de Ses Fontanelles estabelece um novo padrão para a conservação de madeiras submersas e o tratamento de epigrafia anfórica. A capacidade de extrair e estabilizar um volume tão grande de material em um período relativamente curto de tempo é um indicativo da evolução das técnicas de preservação patrimonial na Europa.

O futuro do sítio arqueológico

Embora a extração tenha sido concluída, o trabalho de análise apenas começou. A comunidade científica agora se volta para a catalogação exaustiva das inscrições e a interpretação dos dados coletados sobre a vida dos tripulantes. O desafio de longo prazo será manter a integridade dos artefatos durante o processo de liofilização.

O que resta saber é como esses novos dados sobre as rotas de comércio do século IV alterarão as teorias vigentes sobre a eficiência logística e a integração econômica do Império Romano em seu declínio. A exposição pública em novembro será o próximo passo para integrar esse conhecimento ao patrimônio cultural.

A descoberta de Ses Fontanelles reforça a ideia de que o fundo do mar ainda guarda registros cruciais da história humana, muitas vezes ocultos a poucos metros de destinos turísticos modernos. O sucesso desta operação abre precedentes para futuras intervenções em sítios arqueológicos costeiros, onde a preservação depende tanto da tecnologia quanto da agilidade institucional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España