A inteligência artificial abriu uma nova era para a arqueologia ao conseguir decifrar o conteúdo de um papiro carbonizado pela erupção do Vesúvio no ano 79 d.C. O avanço, conduzido pelo projeto Vesuvius Challenge, permitiu a leitura do manuscrito PHerc 1667, uma relíquia que, devido à sua extrema fragilidade e às camadas sobrepostas, era considerada até então ilegível.

O manuscrito faz parte de uma coleção encontrada na antiga cidade de Herculano, em uma villa possivelmente ligada ao sogro de Júlio César. A técnica empregada evita a abertura física do objeto, que poderia resultar em danos irreversíveis, utilizando tomografia computadorizada seguida de modelos de aprendizado de máquina treinados para identificar vestígios de tinta sobre o suporte carbonizado.

O desafio da preservação histórica

Durante décadas, a preservação dos rolos de Herculano representou um impasse para a ciência. O calor extremo da erupção transformou os papiros em massas negras e rígidas, tornando qualquer tentativa de desenrolá-los um risco iminente de destruição. Esforços anteriores, que incluíram o uso de produtos químicos e métodos mecânicos, fracassaram ao danificar os materiais sem revelar conteúdo legível.

A mudança de paradigma veio com a transição para a análise digital. Ao tratar o rolo como um volume de dados tridimensional, os pesquisadores conseguiram realizar o que chamam de desenrolamento virtual. Essa abordagem não apenas preserva a integridade física da peça, mas também permite que partes do texto, antes perdidas para a observação direta, sejam reconstruídas através de algoritmos de reconhecimento de padrões.

A precisão do aprendizado de máquina

O sucesso na leitura do PHerc 1667, que permitiu o acesso a quase 1,5 metro de texto distribuído em 20 colunas, deve-se à sofisticação dos modelos de IA. A equipe, liderada pela papiróloga Federica Nicolardi, treinou sistemas para distinguir a tinta da textura do papiro carbonizado, um feito que transformou um artefato com pontuação de legibilidade zero em uma fonte de conhecimento histórico.

O mecanismo de trabalho envolveu a segmentação das camadas do rolo no ambiente virtual, permitindo que especialistas seguissem argumentos filosóficos complexos ao longo de múltiplas colunas. Brent Seales, da Universidade de Kentucky, observou que, embora os textos tenham sobrevivido fisicamente por dois milênios, eles permaneceram intelectualmente inacessíveis até que a computação avançada pudesse interpretar sua estrutura interna.

Implicações para a filosofia estoica

O conteúdo recuperado oferece novas perspectivas sobre o pensamento estoico, com menções a conceitos como 'horme' (impulso) e 'phronesis' (sabedoria prática). A análise sugere que o texto discute ética e comportamento humano, reforçando a importância da biblioteca de Herculano como um arquivo único da Antiguidade clássica. A caligrafia indica que o manuscrito pode datar do século II a.C. ou até do final do século III a.C.

Para a comunidade científica, o sucesso abre precedentes para a análise de outros 600 rolos ainda fechados. O desafio agora desloca-se da tecnologia de escaneamento para a necessidade de especialistas capazes de editar e interpretar a vasta quantidade de informações que começam a emergir. A colaboração entre arqueólogos e cientistas da computação torna-se, portanto, o novo padrão para a pesquisa histórica.

Perspectivas futuras da pesquisa

Apesar do êxito, a tarefa de decifrar o restante da coleção permanece monumental. A incerteza sobre o conteúdo dos rolos remanescentes, somada à necessidade de refinamento contínuo dos modelos de IA, mantém o projeto em um estágio de constante evolução técnica. Observar como a IA lidará com diferentes estados de degradação nos outros manuscritos será o próximo passo crítico.

A capacidade de ler o que antes era considerado perdido altera a forma como historiadores planejam futuras investigações. A tecnologia de imagem não substitui o trabalho intelectual de tradução, mas remove a barreira física que isolou o conhecimento antigo por séculos, convidando a um novo exame de obras que moldaram o pensamento ocidental.

O avanço tecnológico demonstra que a fronteira entre a ciência da computação e as humanidades é cada vez mais tênue, permitindo que o passado seja lido com uma clareza antes inimaginável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech