Uma coalizão de ativistas e escritores lançou o “The Living Record” (O Registro Vivo), um arquivo oral que reúne dezenas de elogios de jornalistas palestinos a seus colegas mortos em Gaza desde o início do conflito, em outubro de 2023. A iniciativa busca memorializar os mais de 260 profissionais de mídia mortos, no que já é considerado o evento mais letal para a imprensa na história.
O projeto, segundo reportagem da publicação literária Lit Hub, é mais do que uma homenagem. Trata-se de um ato de contraponto narrativo, que visa humanizar as estatísticas e preservar a identidade de profissionais que, segundo os organizadores, frequentemente têm suas reputações postumamente atacadas. O arquivo é uma tentativa de garantir que as histórias de quem contava as histórias não se percam na névoa da guerra.
Memória como resistência
O “The Living Record” é estruturado como um memorial coletivo. A plataforma apresenta mais de 50 depoimentos em áudio, no árabe original, com transcrições sincronizadas em árabe e inglês. Neles, jornalistas relembram amigos e familiares, detalhando não apenas suas trajetórias profissionais, mas também seus “sonhos, esperanças e realizações”. A escolha do formato oral empresta uma intimidade e urgência que o texto por si só não alcançaria.
A iniciativa nasce de uma crítica direta à cobertura da mídia ocidental. A coalizão responsável, Writers Against the War on Gaza (WAWOG), acusa veículos tradicionais de cumplicidade ao publicar, sem o devido escrutínio, a propaganda oficial israelense — conhecida como hasbara — e ao utilizar uma linguagem passiva que normaliza as mortes. O arquivo, portanto, funciona como uma fonte primária que desafia narrativas hegemônicas, oferecendo um testemunho direto do campo.
A guerra pela narrativa
O assassinato sistemático de jornalistas em uma zona de conflito não é apenas uma tragédia humana; é uma estratégia de controle da informação. Ao silenciar os observadores locais, limita-se o fluxo de relatos independentes, criando um vácuo que é rapidamente preenchido por narrativas oficiais e propaganda. Nesse contexto, preservar a memória dos repórteres é também uma forma de lutar pela própria veracidade dos fatos.
O projeto transcende o conflito específico e levanta questões sobre como a história é registrada em tempo real na era digital. Ele serve como um lembrete de que, em meio à desinformação e à velocidade das redes sociais, o trabalho de documentar, contextualizar e humanizar continua sendo a principal trincheira do jornalismo.
O esforço não é apenas para honrar os que se foram, mas para armar os que ficaram com memória e contexto. O nome “Registro Vivo” é, nesse sentido, preciso: é um ato contínuo de testemunho, que se recusa a deixar que a história seja contada apenas pelos vitoriosos ou pelos que detêm o poder de fogo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





