A gestora ASA, comandada por Alberto Safra, anunciou uma mudança em sua estratégia de alocação de ativos, elevando o nível de risco dos fundos sob sua administração. A decisão, comunicada nesta quarta-feira (23), reflete uma crescente convicção na possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro nas próximas eleições presidenciais e a expectativa de uma consequente alteração na política econômica do país.

O Comitê Mensal de Alocação Brasil do ASA justificou o movimento citando análises que indicam uma probabilidade cada vez maior de uma correção de rota na política fiscal. Segundo a gestora, tal cenário abriria espaço para a normalização da política de juros, tornando os ativos brasileiros mais atrativos. "Nossas análises indicam probabilidade crescente de correção de rota na política fiscal, o que abriria espaço para a normalização da política de juros", afirmou o comitê em nota.

Cenário Eleitoral e a Estratégia de Risco

A proximidade das eleições presidenciais e a percepção de uma disputa mais acirrada entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro têm exercido uma influência notável nos mercados financeiros brasileiros. A ASA, ao aumentar sua exposição a ativos de risco, sinaliza uma aposta clara em uma alternância de poder e em uma nova direção para a economia. O comitê de alocação da gestora, composto por profissionais de diversas áreas, se reúne mensalmente para avaliar cenários e seus impactos nos diferentes mercados, confirmando a estratégia de aumentar gradualmente a alocação em ativos de risco domésticos.

O movimento da ASA não é isolado. Outras gestoras de peso, como Verde, de Luís Stuhlberger, e Ibiuna Investimentos, já vinham ampliando suas apostas na bolsa brasileira, especialmente via mercado de opções, antecipando uma eventual mudança de governo que favoreça o mercado de ações. A Persevera Asset Management, por sua vez, projetou a vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno, baseando-se na rejeição ao atual presidente e na erosão de seu apoio em regiões historicamente petistas.

Aposta em Renda Variável e Títulos Prefixados

Na prática, a ASA decidiu ampliar a alocação em renda variável no Brasil, reduzindo a exposição em renda fixa e caixa. A gestora argumenta que os prêmios atuais embutidos nos ativos brasileiros são elevados, e a combinação com o aumento da probabilidade de mudança na política econômica e o potencial de valorização dos preços criam uma assimetria favorável. Para fundos multimercados macro, a estratégia inclui a montagem de compra de opções do Índice Bovespa. Já em carteiras mais conservadoras, o aumento de risco se deu pela ampliação de aplicações em ativos prefixados.

O comitê elevou em dois passos a alocação em renda variável nos portfólios que já contavam com essa exposição e, também em dois passos, a alocação em prefixado nos portfólios conservadores. A gestora ressalva que o horizonte da decisão é de médio e longo prazos e está sujeito a oscilações, tendo optado por uma construção gradual das estratégias desde outubro do ano passado, em vez de um aumento de risco em um único passo. "Estamos conscientes de que o calendário eleitoral pode elevar a volatilidade no curtíssimo prazo, e a decisão não pressupõe retorno imediato", alertou o comunicado.

Implicações para o Mercado e a Economia

A decisão da ASA de Alberto Safra de aumentar a exposição ao risco, apostando em uma vitória de Flávio Bolsonaro e em uma mudança na política econômica, tem implicações significativas para o mercado financeiro brasileiro. Se a expectativa da gestora se concretizar, o país poderá testemunhar uma política fiscal mais austera, com potencial para a redução da inflação e a normalização das taxas de juros. Isso poderia atrair mais investimentos estrangeiros e impulsionar o crescimento econômico.

No entanto, o cenário eleitoral é intrinsecamente volátil, e qualquer reviravolta ou fato novo de grande impacto pode alterar o curso das pesquisas e, consequentemente, as estratégias dos investidores. A própria ASA reconhece que o calendário eleitoral pode gerar volatilidade no curto prazo, e que o retorno imediato não é garantido. A cautela, portanto, deve permear as decisões de investimento, mesmo diante de cenários considerados favoráveis.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Alocação

O principal ponto de interrogação reside na capacidade de qualquer novo governo em implementar as reformas fiscais prometidas e em manter a estabilidade política e econômica. A aceitação dessas novas políticas pelo Congresso e pela sociedade em geral será crucial para o sucesso da estratégia de alocação da ASA e de outras gestoras que apostam em um cenário de mudança.

Além disso, a reação dos mercados internacionais a uma eventual virada política no Brasil também merece atenção. A percepção de risco-país e a confiança dos investidores estrangeiros serão determinantes para a atração de capital e para a sustentação de um ciclo de crescimento. O que se observa é um mercado atento, que busca precificar o cenário eleitoral e suas potenciais consequências econômicas, mas que ainda aguarda os desdobramentos para confirmar suas apostas.

A gestora ASA, ao aumentar sua exposição a risco, demonstra uma visão otimista sobre o futuro econômico do Brasil sob uma nova liderança. A aposta em uma mudança de rota fiscal e a consequente normalização dos juros são os pilares dessa estratégia, que, contudo, não ignora a volatilidade inerente ao período eleitoral. O mercado, por sua vez, segue monitorando de perto os desdobramentos, ciente de que o cenário pode mudar rapidamente, e que a prudência é uma aliada importante nesse contexto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney