O cheiro de tinta acrílica paira sobre o estúdio de Ashley Chew em Nova York, mas o que realmente preenche o ambiente não é o solvente, e sim uma energia deliberadamente acolhedora. Para Chew, o espaço de trabalho deixou de ser apenas um local de produção solitária para se tornar uma extensão de sua própria infância, uma espécie de livro de colorir que ganhou vida física. É ali, entre têxteis e superfícies prontas para receber novas ideias, que a artista desafia as barreiras invisíveis que ainda cercam o mundo da arte contemporânea.
A arquitetura da inclusão
Chew desenhou seu estúdio para ser o oposto das instituições onde, por vezes, sentiu-se como uma estranha. Em um mercado que frequentemente privilegia a exclusividade, ela optou por criar um ambiente que lembra um lobby ou um lounge, projetado para que amigos, outros artistas e espectadores se sintam representados. A escolha não é meramente estética; é uma declaração política e afetiva. Ao abrir as portas do estúdio para a comunidade, ela subverte a lógica da galeria tradicional, transformando o ato de criar em um exercício de convivência.
Disciplina e o jogo criativo
Para manter essa fluidez, Chew impõe uma disciplina visual rigorosa. O hábito de limpar cada pincel e organizar cada superfície antes de encerrar o dia não é apenas organização, mas uma forma de garantir que o caos externo não invada o seu momento de jogo. Ela transita entre a pintura em telas, o trabalho com marcas e a intervenção em objetos de couro com uma versatilidade que exige foco. Quando a tela se torna um obstáculo, ela não insiste; ela sai, pedala, lê perto da água e retorna apenas quando a curiosidade é restaurada.
O estúdio como tecido social
O ambiente ao redor do estúdio, situado perto de museus e imerso em festivais locais, funciona como uma extensão natural de sua prática. As quintas-feiras são dedicadas a circular por aberturas e exposições, mas o retorno ao estúdio é sempre marcado pela intenção de conectar pessoas. Chew atua como uma facilitadora, promovendo encontros que vão além do networking profissional, focando na construção de laços genuínos entre criativos que, muitas vezes, operam em silos isolados.
O legado da curiosidade
Ao olhar para o resultado de quatro anos de trabalho ininterrupto, Chew reconhece que a essência de sua prática continua sendo aquela mesma curiosidade de quando tinha oito anos. O desafio de migrar das telas tradicionais para novos suportes têxteis é apenas o capítulo mais recente de uma trajetória que se nega a ser estática. O estúdio, portanto, permanece como um organismo vivo, uma promessa de que é possível manter a integridade artística e a abertura para o outro em uma cidade que raramente oferece espaço para ambos.
O que acontece quando o espaço de trabalho deixa de ser um bunker de produção e passa a ser uma praça pública? Talvez a resposta esteja na capacidade de Chew em não separar a vida da obra, deixando a porta entreaberta para o inesperado. Com reportagem de Brazil Valley
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