Trinta anos depois de ser selado, o estrato Aurora, no famoso sítio arqueológico de Gran Dolina, em Atapuerca, na Espanha, foi reaberto. As primeiras descobertas desta nova fase de escavações já estão forçando uma revisão profunda sobre o comportamento de um dos primeiros habitantes conhecidos da Europa, o Homo antecessor.

Novos fósseis, datados de aproximadamente 850 mil anos, trazem evidências de que o canibalismo praticado por esta espécie era mais abrangente do que se imaginava. Segundo reportagem do jornal espanhol El Confidencial, a principal revelação é que não apenas crianças e adolescentes eram consumidos, mas também indivíduos adultos, o que altera drasticamente o entendimento sobre a dinâmica social e de sobrevivência desses grupos de hominídeos.

Um canibalismo menos seletivo

Até agora, os fósseis encontrados sugeriam que o canibalismo do Homo antecessor era focado nos membros mais vulneráveis do grupo. A nova campanha de escavação, no entanto, recuperou 24 novos restos humanos, elevando para pelo menos 15 o número mínimo de indivíduos identificados no local. Desses, ao menos seis eram adultos, uma faixa etária que estava sub-representada nas coletas anteriores.

As marcas de corte encontradas nos ossos, feitas para descarnar os corpos, são comparáveis às observadas em restos de animais caçados no mesmo período. Isso sugere que os corpos humanos eram processados de forma semelhante à de outras presas. A descoberta de que adultos também eram alvo da prática levanta novas questões sobre suas motivações: seria uma resposta a uma escassez extrema de alimentos, parte de um ritual ou uma forma de competição territorial? Os dados atuais ainda não permitem uma conclusão definitiva.

Retrato de 850 mil anos

Junto aos fósseis humanos, os pesquisadores encontraram uma variedade de ferramentas de pedra e restos de fauna, incluindo hienas, cervos, cavalos e rinocerontes. Esse conjunto de achados permite reconstruir com maior detalhe o ambiente e as estratégias de subsistência do Homo antecessor. A análise combinada de ferramentas, ossos de animais e restos humanos canibalizados oferece um retrato complexo da vida no Pleistoceno Inferior.

A reabertura do estrato Aurora inaugura, portanto, uma nova etapa na compreensão dos primeiros povoadores da Europa. As próximas campanhas de escavação prometem não apenas completar o quebra-cabeça anatômico de uma espécie ainda pouco conhecida, mas também aprofundar o conhecimento sobre sua organização social e as circunstâncias que levaram a uma prática de canibalismo tão disseminada.

As respostas que emergirem de Atapuerca não definirão apenas o Homo antecessor, mas também os limites do que consideramos comportamento humano em suas fases mais primitivas. A pesquisa continua, e cada fragmento de osso reescreve um capítulo da nossa própria história evolutiva.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech