O futuro da Deoleo, um dos maiores conglomerados de azeite do mundo e dono de marcas como a espanhola Carbonell e a italiana Bertolli, está em jogo. Seus principais acionistas, os fundos de private equity CVC e Alchemy, iniciaram um processo formal para avaliar “alternativas estratégicas”, o que no jargão do mercado significa que a empresa está à venda, total ou parcialmente.

A disputa pelo controle da companhia aqueceu nas últimas semanas, colocando em campos opostos o capital espanhol e o italiano. De um lado, a cooperativa Dcoop e o envasador Acesur tentam criar um campeão nacional. Do outro, a italiana Coricelli surge com a oferta financeira mais alta, segundo reportagem da Forbes España, transformando a transação em um teste de força entre o pragmatismo financeiro e o interesse industrial de um país que é líder mundial na produção de azeite.

O xadrez estratégico

Para os potenciais compradores, a Deoleo é mais do que um portfólio de marcas; é um atalho para a liderança global. Para a cooperativa espanhola Dcoop, hoje forte na produção a granel, a aquisição representaria um salto para o mercado de valor agregado em escala mundial. A joia da coroa é a operação nos Estados Unidos, onde a marca Bertolli, da Deoleo, detém cerca de 14% de share. O problema é que a própria Dcoop já colidera o mercado americano com sua marca Pompeian, o que criaria um gigante com mais de um terço do mercado e, consequentemente, um alvo para as autoridades de concorrência.

Um dilema semelhante enfrenta a Acesur, dona de marcas como Coosur e La Española. Uma fusão com a Deoleo criaria um líder absoluto no mercado espanhol, com uma fatia combinada superior a 20%. Novamente, a concentração de mercado seria um obstáculo regulatório significativo. É justamente essa a brecha que o proponente italiano explora. Com uma presença relativa menor tanto na Espanha quanto nos EUA, a Coricelli teria um caminho regulatório mais simples, tornando sua oferta, supostamente a maior na mesa com cerca de 500 milhões de euros, ainda mais atraente para os vendedores.

O fator nacionalista

O governo da Espanha não assiste à disputa de forma passiva. Madrid já manifestou publicamente sua preferência por uma “solução espanhola”, ecoando o sentimento de cooperativas locais que defendem que o país não pode se contentar em liderar a produção, mas deve também comandar a comercialização e as marcas. A preocupação é que a venda para um grupo estrangeiro retire da Espanha o poder de decisão sobre um ativo estratégico em um setor icônico para a sua economia e cultura.

Contudo, a última palavra não pertence ao governo, mas aos fundos CVC e Alchemy. Como gestores de capital de terceiros, seu mandato fiduciário é claro: maximizar o retorno financeiro para seus investidores. A oferta mais alta e com maior certeza de execução tende a prevalecer sobre apelos patrióticos. A Coricelli parece ciente disso, estruturando sua proposta através de uma filial sediada em Sevilha, um movimento que pode ser lido como um gesto para mitigar preocupações políticas.

O desfecho do leilão pela Deoleo, portanto, será um importante sinalizador. Ele dirá se, no agronegócio europeu do século 21, a lógica do mercado e do capital globalizado se sobrepõe definitivamente às doutrinas de soberania industrial que voltam a ganhar força no continente. Para os acionistas, a equação é financeira. Para a Espanha, é existencial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España