A fusão que originou o Azzas 2154 em agosto de 2024 foi desenhada para consolidar a maior plataforma de moda do mercado nacional, mas a tese de escala colidiu rapidamente com a realidade operacional. Em análise recente, fica claro que o projeto esbarrou na incompatibilidade entre duas culturas de gestão: o modelo centralizador de Alexandre Birman (Arezzo) e a lógica descentralizada de Roberto Jatahy (Grupo Soma). O desgaste resultou na perda de dezenas de executivos de alto escalão e expôs a fragilidade de um acordo focado em sinergias de receita. O que deveria ser uma integração de portfólio transformou-se em disputa judicial pelo controle.
O esgotamento da mediação e a escalada judicial
O contraste cultural manifestou-se cedo. A Arezzo operava sob supervisão direta de Birman, enquanto o Grupo Soma conferia autonomia a marcas como Farm, Animale e Hering — esta adquirida em 2021 após disputa com a própria Arezzo. O atrito ficou evidente com a saída de Rony Meisler, fundador da Reserva, dias após o fechamento do negócio em agosto de 2024. Meisler, que vendeu sua fatia nas janelas de lock-up de 2022 e 2023, sentia-se cada vez menos consultado pelo CEO da companhia.
Na tentativa de evitar conflito aberto, os sócios estabeleceram uma trégua mediada por Rui Kameyama. O executivo conduziu por dez meses a integração das operações do Rio de Janeiro, mapeando sinergias incorporadas ao orçamento de 2026. A ruptura ocorreu quando Birman passou a intervir na Reserva. Após ser alertado de que estaria cruzando uma linha societária, Kameyama pediu demissão, eliminando o ponto de equilíbrio da gestão.
A saída abriu caminho para a nomeação de Davi Piton, executivo da confiança de Birman, ao comando da Reserva. Piton já liderava a unidade Basic (Hering) e a Shoes and Bags, além de ser cofundador da Cariuma, marca comprada pelo Azzas no fim de 2025. Para Jatahy, a manobra desmontava a integração. A resposta foi uma cautelar no Rio de Janeiro para barrar as decisões de Birman, que reagiu com um agravo de instrumento exigindo que o foro de São Paulo prevalecesse, empurrando o caso para a via da arbitragem.
O peso estrutural e o impacto nos resultados
A crise de comando reflete falhas na concepção da fusão, que priorizou o crescimento conjunto das marcas e deixou as sinergias de custo em segundo plano. Uma cisão esbarra em barreiras contratuais severas: o acordo de acionistas impõe uma trava de dez anos para a negociação de ações do bloco de controle. Uma separação exigiria concessões financeiras massivas e a complexa divisão de estruturas parcialmente integradas.
O impasse já contamina os balanços. No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida do Azzas caiu, puxada pelo desempenho negativo da unidade Basic. Relatório do Citi apontou que o resultado operacional e o lucro líquido decepcionaram. Em contrapartida, o vestuário feminino herdado do Soma manteve-se sólido, registrando crescimento a despeito da desaceleração geral da empresa.
Para contexto, a BrazilValley aponta que fusões de gigantes do varejo frequentemente subestimam o custo friccional de integrar lideranças fortes. No caso do Azzas, a paralisia fortalece a tese de que a nomeação de um CEO externo seria o único caminho para resgatar o valor da operação. Contudo, relatos indicam que o conselho de administração não demonstrou capacidade para arbitrar o conflito e impor essa transição.
O Azzas 2154 foi fundado sob a premissa de que marcas fortes ganham tração juntas. O cenário atual prova o inverso: ativos saudáveis encontram-se reféns de uma sociedade disfuncional. Enquanto a governança não resolver a disputa, a promessa da maior potência da moda nacional continuará refém das vaidades de seus criadores.
Fonte · Brazil Valley | Business




