O Banco Mundial, a maior instituição multilateral de desenvolvimento do mundo, oficializou o abandono de sua meta de destinar 45% de seus empréstimos a projetos de financiamento climático. A decisão, tomada após meses de pressão intensa da administração dos Estados Unidos, marca uma mudança significativa na estratégia institucional da organização sediada em Washington. Em 2025, o banco distribuiu US$ 39,2 bilhões em financiamento, consolidando-se como o maior provedor global de capital para adaptação e mitigação de mudanças climáticas.

A mudança ocorre em um momento de fragilidade para o financiamento internacional, marcado por cortes orçamentários em diversas nações desenvolvidas. Embora o banco tenha mantido seu Plano de Ação Climática (CCAP) por meio de uma extensão indefinida, a eliminação da meta numérica explícita é vista por analistas como uma vitória simbólica e estratégica da atual gestão americana, que tem defendido um redirecionamento do foco da instituição para projetos que priorizem o crescimento econômico tradicional em detrimento da agenda verde.

O peso político no conselho do banco

A estrutura de governança do Banco Mundial reflete a hegemonia de seus maiores acionistas. Os Estados Unidos, como principal cotista, exercem influência decisiva sobre as políticas de empréstimo. Sob o governo de Donald Trump, o Tesouro americano, liderado por Scott Bessent, intensificou o discurso contra o que classificou como um foco excessivo em clima, pressionando pela retomada de financiamentos para projetos de combustíveis fósseis, incluindo extração de gás, setor que o banco havia restringido desde 2019.

O impasse gerou divisões profundas no conselho de diretores. Enquanto nações europeias e um grupo de quase 100 países em desenvolvimento defenderam a manutenção da meta como um pilar essencial para o cumprimento do Acordo de Paris, o bloco liderado pelos EUA, com apoio de Rússia e Arábia Saudita, forçou a desidratação do compromisso. O resultado final, classificado como um compromisso, mantém o plano de ação, mas retira a métrica que servia como termômetro claro de desempenho climático da instituição.

Mecanismos de financiamento e a demanda dos clientes

O funcionamento do Banco Mundial baseia-se na mobilização de capital público para alavancar investimentos privados em economias emergentes. Entre 2020 e 2025, o banco destinou US$ 164 bilhões para projetos com co-benefícios climáticos, priorizando energia limpa e infraestrutura sustentável. A tese central da instituição tem sido a de que o desenvolvimento econômico moderno é indissociável da resiliência climática, uma visão que agora enfrenta o desafio da nova diretriz americana.

A tensão reside no desalinhamento entre a visão da administração dos EUA e a demanda dos países beneficiários. O grupo G11+, encabeçado por Brasil e China, tem reiterado que a agenda climática é uma prioridade nacional e que os projetos financiados pelo banco seguem trajetórias determinadas internamente pelos próprios países. A incerteza agora recai sobre como o banco reconciliará essa demanda por investimentos verdes com a nova orientação política vinda de Washington.

Implicações para o mercado global

Para o ecossistema de financiamento climático, a incerteza é o principal custo. O objetivo de atingir US$ 300 bilhões anuais em financiamento climático para países em desenvolvimento até 2035, estabelecido no âmbito do Acordo de Paris, depende fortemente da capacidade do Banco Mundial de escalar seus empréstimos. Se a instituição reduzir seu ritmo, o gap de financiamento poderá se tornar intransponível para muitas economias que dependem desse capital de baixo custo.

Concorrentes e investidores privados observam com cautela. A sinalização do banco influencia o apetite de risco de fundos globais. Caso a instituição se afaste de critérios climáticos rigorosos, o efeito cascata pode desestimular o fluxo de capital privado para projetos de energia renovável em mercados emergentes, revertendo anos de progresso na integração de riscos ambientais nas decisões de crédito.

O futuro da agenda institucional

O que permanece incerto é a eficácia da avaliação independente que o banco se comprometeu a realizar sobre o seu plano de ação. Analistas questionam se a ausência de uma meta numérica tornará o monitoramento menos transparente ou se a pressão dos acionistas europeus e dos países em desenvolvimento será suficiente para manter o volume de financiamento verde em patamares elevados.

O cenário exige atenção para as próximas rodadas de financiamento da Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA), que preservou metas climáticas para o curto prazo. A evolução dessa política será o principal indicador de se o Banco Mundial continuará a ser um motor da transição energética ou se a instituição passará por um processo de transformação estrutural mais profundo sob a influência geopolítica atual.

A trajetória do financiamento climático internacional atravessa um momento de inflexão, onde a política doméstica das grandes potências colide com a necessidade de escala global. A capacidade do Banco Mundial de equilibrar essas forças determinará, em grande medida, a viabilidade das metas climáticas acordadas na última década, deixando em aberto a questão sobre quem, afinal, ditará o ritmo da transição verde nos mercados emergentes nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Carbon Brief