O Banco Central Europeu (BCE) manteve as taxas de juros inalteradas nesta quinta-feira, uma decisão amplamente esperada pelo mercado. A pausa, no entanto, não sinaliza o fim do ciclo de aperto monetário no continente. Pelo contrário, a autoridade monetária deixou a porta aberta para uma nova alta já em setembro, condicionando o movimento à evolução do cenário macroeconômico.

A principal variável nessa equação é a energia. Com o barril de petróleo flertando novamente com a marca de US$ 100 e o gás natural atingindo sua máxima em três anos, o BCE se vê diante de um dilema: como conter a pressão inflacionária vinda das commodities sem asfixiar uma economia que já dá sinais de fraqueza.

O fantasma da energia

A comunicação do BCE foi clara ao apontar que “a incerteza permanece elevada e o impacto inflacionário total do choque energético ainda não se manifestou plenamente”. A instituição acompanha de perto os chamados “efeitos de segunda ordem” — quando a alta da energia contamina o preço de outros bens e serviços, gerando uma espiral inflacionária.

O mercado financeiro, por sua vez, já parece ter feito sua aposta. Investidores precificam quase três novos aumentos de juros nos próximos meses, refletindo a preocupação com o choque energético. A leitura, contudo, pode ser precipitada. A aposta parece mais atrelada à volatilidade das commodities do que aos fundamentos da economia europeia.

O contraponto dos salários

O que permite ao BCE adotar uma postura de paciência é a ausência, por enquanto, de uma espiral de preços e salários. Segundo a reportagem do Money Times, que cita dados recentes, o crescimento salarial continua em desaceleração na zona do euro. O mercado de trabalho, especialmente na Alemanha, a locomotiva do bloco, também mostra arrefecimento.

Sem a pressão de trabalhadores por salários mais altos para compensar a inflação, o choque energético pode ser um evento mais isolado e menos duradouro. É por isso que muitos economistas consultados pela Reuters acreditam que a zona do euro precisará de um aperto monetário muito menor do que o mercado prevê para domar a inflação, que pode orbitar os 3% nos próximos meses, ainda acima da meta de 2%.

A decisão de hoje, portanto, não é um ponto final, mas uma vírgula. O BCE ganha tempo para observar se o aumento do custo da energia irá de fato se infiltrar na economia ou se será neutralizado pela moderação nos salários e pela atividade econômica mais fraca. A reunião de setembro será o palco decisivo para essa arbitragem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times