A dívida nacional dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões. Mais relevante, a dívida em posse do público como proporção do PIB atingiu 100% pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O marco fiscal coincide com o auge do poder político da geração baby boomer, que ocupou a presidência e a maioria no Congresso americano por quase um quarto de século.
Segundo uma análise do Committee for a Responsible Federal Budget (CRFB), citada em reportagem da Fortune, a deterioração fiscal não foi um acidente, mas o resultado de decisões políticas consistentes. A leitura é que, ao longo de 25 anos, uma geração no comando do país optou repetidamente por um caminho de crescimento da dívida, cuja conta agora recai sobre as gerações futuras.
A matemática da dívida
A análise do CRFB, um think tank não-partidário, decompõe a explosão da dívida em três fatores de peso quase igual. Cerca de 37% do aumento desde 2001 pode ser atribuído a grandes cortes de impostos. Outros 33% vêm de aumentos de despesas, enquanto 28% são resultado de respostas a crises, como o resgate financeiro de 2008 e os pacotes de estímulo durante a pandemia de covid-19.
As principais leis por trás desses números foram assinadas por presidentes boomers. George W. Bush (nascido em 1946) sancionou os cortes de impostos de 2001 e 2003. Barack Obama (nascido em 1961) estendeu esses mesmos cortes. E Donald Trump (nascido em 1946) aprovou a grande reforma tributária de 2017. O relatório sugere que, sem qualquer um desses três pilares — cortes de impostos, aumento de gastos ou respostas a crises —, a dívida hoje estaria em um patamar muito mais controlado.
O desequilíbrio geracional
Além das decisões legislativas, a própria estrutura dos gastos federais revela um forte viés geracional. O governo americano gasta aproximadamente dez vezes mais por pessoa com cidadãos acima de 65 anos do que com aqueles abaixo de 26, segundo o Penn Wharton Budget Model. Aposentados, que compõem 17% da população, recebem 66% dos gastos com programas sociais, como Social Security e Medicare.
Esse desequilíbrio cria um ciclo político que se auto-reforça. Eleitores mais velhos comparecem às urnas em maior número e com mais consistência, tornando qualquer discussão sobre reforma de benefícios um tabu político — o chamado "terceiro trilho" da política americana, que eletrocuta quem o toca. Para os legisladores, em sua maioria também boomers, a decisão de proteger os benefícios de seus eleitores e pares, adiando os custos, tornou-se o caminho de menor resistência.
O debate não é sobre um único voto ou uma conspiração, mas sobre um padrão de governança. A análise dos dados mostra menos um ato deliberado de egoísmo geracional e mais uma série de incentivos políticos que, ao longo de décadas, levaram a escolhas que favoreceram o presente em detrimento do futuro. A herança deixada não é apenas fiscal, mas um sistema político onde o adiamento da fatura se tornou a norma.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





