As ações do Bradesco (BBDC4) registraram uma queda acentuada de 37% desde o segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro, um desempenho inferior ao do Ibovespa em dólares (-24%) e do Itaú (-26%) no mesmo período. Contudo, o Morgan Stanley considera que essa desvalorização foi excessiva e criou uma oportunidade de investimento. Em relatório, os analistas do banco americano reiteraram a recomendação de 'overweight' (equivalente a compra), apesar de terem cortado o preço-alvo para as ADRs negociadas nos EUA de US$ 5,50 para US$ 4,75.
Valuation atrativo em meio a fundamentos sólidos
O principal argumento do Morgan Stanley reside no valuation do Bradesco. Atualmente, o banco negocia a 0,7 vez o valor patrimonial (P/VPA), próximo das mínimas registradas na última década. Isso ocorre mesmo com um Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) de 16,6%, um indicador que, segundo os analistas, justificaria um múltiplo mais elevado. O ROE do Bradesco supera a taxa Selic em 2,9 pontos percentuais, e a relação histórica entre rentabilidade e múltiplo patrimonial sugere que o banco deveria ser negociado próximo de 1,3 vez o valor patrimonial, quase o dobro do patamar atual.
Desconto histórico em relação ao Itaú
A disparidade entre o Bradesco e seu principal concorrente, o Itaú, também foi um ponto de atenção. O Bradesco negocia com um desconto de 62% em relação ao Itaú no múltiplo P/VPA (0,7 vez contra 2 vezes), o maior desconto da última década. Essa diferença de valuation é significativamente maior do que a diferença de rentabilidade entre os dois bancos, que é de 8,9 pontos percentuais (16,6% de ROE para o Bradesco, contra 25,5% para o Itaú). Para o Morgan Stanley, o desconto aplicado às ações do Bradesco parece desproporcional diante dessa distância de rentabilidade.
Comparativo com a crise de 2016
Para reforçar a tese de que o mercado reagiu de forma exagerada, o Morgan Stanley comparou o cenário atual com o período de crise de janeiro de 2016. Naquele momento, em meio a uma recessão e instabilidade política, o Bradesco negociava a cerca de 1 vez o valor patrimonial, mesmo com o PIB em forte contração e o desemprego em alta. Atualmente, com a Selic em 13,7%, atividade econômica e mercado de trabalho em terreno positivo, e um ROE de 16,6%, o múltiplo patrimonial de 0,7 vez é cerca de 30% inferior ao piso observado em 2016. A precificação atual, na visão do banco, é mais pessimista do que os fundamentos justificariam.
Cortes de custos e carteira de crédito conservadora
Além do valuation , o Morgan Stanley destaca medidas que podem proteger os resultados do Bradesco em um cenário econômico menos favorável. O banco tem investido em transformação digital e eficiência operacional, reduzindo sua rede de agências em um terço nos últimos dois anos, com uma queda de apenas 8% no quadro de funcionários, indicando espaço para ajustes e novas economias. Paralelamente, a carteira de crédito tem se tornado mais conservadora, com o aumento da participação de empréstimos com garantia para pessoas físicas e priorização de clientes de menor risco em modalidades sem garantia. Essa combinação de estrutura de custos enxuta e carteira de crédito mais segura pode sustentar o lucro e a rentabilidade do Bradesco.
O Morgan Stanley sugere que a forte queda nas ações do Bradesco pós-eleições pode ter criado uma oportunidade de compra, com o banco negociando a múltiplos historicamente baixos. A análise foca na resiliência dos fundamentos e nas medidas de eficiência e gestão de risco adotadas pela instituição. Resta observar como o mercado reagirá a essa tese e se os fundamentos se traduzirão em recuperação do valor das ações.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





