A startup de biotecnologia BrainChild Bio, de Seattle, levantou US$ 116 milhões em uma rodada de captação Série A para avançar com uma terapia celular experimental contra uma das formas mais letais de câncer cerebral infantil. O alvo é o glioma pontino intrínseco difuso (DIPG), um tumor raro e devastador que afeta principalmente crianças entre 5 e 10 anos.

O aporte, liderado por um fundo de uma família e uma fundação não revelados, financiará um ensaio clínico de Fase 2, etapa crucial que pode servir de base para um futuro pedido de aprovação junto à FDA, a agência reguladora americana. O movimento sinaliza uma aposta de peso em uma das fronteiras mais desafiadoras da oncologia, onde as opções de tratamento são escassas e a sobrevida média é de apenas 11 meses após o diagnóstico.

Uma nova rota para o cérebro

A tecnologia de terapia CAR T, que modifica geneticamente as células de defesa do próprio paciente (células T) para que reconheçam e ataquem o câncer, já se provou eficaz em alguns tipos de leucemia. Seu uso em tumores sólidos, especialmente no cérebro, enfrenta um obstáculo formidável: a barreira hematoencefálica, uma membrana protetora que impede a passagem da maioria dos medicamentos para o sistema nervoso central.

A abordagem da BrainChild Bio, licenciada do hospital infantil Seattle Children's, busca contornar essa barreira. Em vez de uma aplicação intravenosa, a terapia é administrada diretamente no líquido cefalorraquidiano por meio de um cateter implantado. A tese é que essa entrega localizada permite que as células CAR T cheguem ao tumor com mais eficácia e abre a possibilidade de administrações repetidas, ajustando o tratamento à resposta do paciente. Não se trata apenas de um novo fármaco, mas de um novo paradigma de acesso ao cérebro.

Capital e pedigree para a missão

O cheque de US$ 116 milhões é notável para uma empresa em estágio clínico, refletindo não apenas a promessa da tecnologia, mas também a força de sua equipe. A BrainChild foi fundada por Michael Jensen, um pioneiro na área que cofundou a Juno Therapeutics (adquirida pela Celgene) e a Umoja Biopharma. O CEO é Steven Brugger, que recentemente vendeu sua startup anterior, a Affinivax, para a GSK por US$ 3,3 bilhões.

Esse pedigree de execução e sucesso em biotecnologia é um fator decisivo para investidores que apostam em projetos de altíssimo risco e potencial retorno. Além do ensaio para DIPG, parte dos recursos será usada para desenvolver uma terapia CAR T que mira três alvos diferentes no glioblastoma, outro tipo de tumor cerebral agressivo. A participação do Seattle Children's e do WRF Capital na rodada reforça a conexão entre a pesquisa acadêmica de ponta e sua translação para o mercado.

Embora o caminho de um ensaio de Fase 2 até um tratamento aprovado seja longo e incerto, a combinação de ciência inovadora, um alvo clínico de alta necessidade e uma liderança experiente posiciona a BrainChild Bio de forma única. O teste definitivo, como sempre em biotecnologia, virá dos dados clínicos que o estudo ILLUMINATE irá gerar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · GeekWire