O Brasil se destaca como um gigante no consumo de serviços digitais e inteligência artificial, figurando entre os principais mercados globais para plataformas como ChatGPT, Instagram e WhatsApp. No entanto, essa pujança na demanda contrasta drasticamente com a fragilidade de sua infraestrutura de processamento de dados. O país opera uma capacidade de data centers ínfima em comparação com economias desenvolvidas, como os Estados Unidos, o que levanta sérias questões sobre sua competitividade para atrair os investimentos necessários.

O Gigante Digital com Pés de Barro

Os números do consumo digital brasileiro são impressionantes. Com 185 milhões de brasileiros conectados, o país ostenta uma das maiores taxas de penetração de internet do mundo, com usuários dedicando em média 9 horas diárias online. É o terceiro maior mercado para Instagram e TikTok e o segundo para WhatsApp. A adoção de novas tecnologias, como o Pix e o Open Finance, também demonstra um alto grau de maturidade e engajamento da população com serviços digitais. No campo da inteligência artificial, o Brasil se posiciona como o terceiro maior mercado para o ChatGPT, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia, e lidera em modalidades que exigem alto poder de processamento, como a geração de imagens. Essa alta demanda, porém, não se reflete na capacidade de processamento local.

A Disparidade na Infraestrutura de Processamento

A infraestrutura de data centers no Brasil é desproporcionalmente pequena frente à sua demanda. Enquanto os Estados Unidos operam cerca de 50 GW de capacidade, o Brasil mal atinge 0,8 GW. Essa diferença é gritante: a capacidade instalada brasileira corresponde a apenas 1/60 da americana. Considerando a proporção entre os PIBs dos dois países, a capacidade do Brasil representa apenas um quinto do que seria esperado para o tamanho de sua economia. Além disso, os data centers brasileiros são significativamente menores em escala, com uma capacidade média de 4 MW, contra 80 MW nos EUA. Essa deficiência resulta em cerca de 60% dos dados brasileiros sendo processados fora do país, uma situação insustentável para um líder em consumo de IA.

Barreiras para o Investimento em Data Centers

A principal razão para essa defasagem não é a falta de demanda, mas sim a baixa competitividade do Brasil em atrair investimentos para a construção de data centers. Fatores como custo de capital, energia, impostos sobre equipamentos, prazos de licenciamento e conexão à rede elétrica são cruciais na decisão de onde construir. Embora o Brasil ofereça energia limpa e um mercado consumidor expressivo, ele perde em outros aspectos. A carga tributária sobre servidores e processadores, que compõem 80% do investimento em um data center de IA, é cerca de um terço maior do que em países concorrentes. Essa combinação de fatores, ao somar as desvantagens, leva investidores a optarem por outros locais.

O Papel das Políticas Públicas e os Desafios Restantes

O recente regime tributário federal para data centers, o Redata, sancionado em setembro, busca mitigar parte desse problema ao suspender impostos federais sobre equipamentos. No entanto, essa medida isolada pode não ser suficiente. O ICMS, imposto estadual que representa a maior parte da carga tributária diferencial sobre equipamentos, ainda aguarda uma decisão sobre sua redução no Confaz. Sem uma redução significativa deste imposto, o Redata pode não tornar o Brasil competitivo o bastante para atrair os volumosos investimentos necessários. A infraestrutura de data centers é um gargalo que precisa ser urgentemente resolvido para que o país possa capitalizar sua alta demanda digital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside