O Brasil encontra-se diante de uma janela de oportunidade geopolítica que pode desencadear um novo superciclo de riqueza, impulsionado pela demanda global por segurança energética, alimentar e resiliência climática. A avaliação é de Gustavo Montezano, CEO da YvY Capital e ex-presidente do BNDES, que aponta a mudança estrutural na forma como investidores e governos precificam ativos produtivos em um cenário de tensões internacionais.

Segundo o executivo, a abundância de recursos naturais, como minerais estratégicos, água e terras agricultáveis, coloca a América do Sul em uma posição de vantagem comparativa. Contudo, a tese editorial é que o sucesso dessa transição dependerá menos da dotação natural e mais da capacidade do país em executar projetos complexos e fortalecer suas instituições de base.

O peso da infraestrutura na nova economia

Para Montezano, o conceito de infraestrutura está sendo ressignificado pelo mercado. O que antes era visto sob a ótica tradicional de obras públicas, hoje se manifesta como ativos essenciais para a nova economia, abrangendo desde data centers até cadeias de segurança alimentar e transição energética. A infraestrutura, portanto, volta a ocupar o centro das decisões de alocação de capital, embora sob novas nomenclaturas e exigências técnicas.

O ex-presidente do BNDES enfatiza que o Brasil possui uma agenda extensa de investimentos básicos, como saneamento e logística, que agora se conecta a novas frentes, como a captura de carbono e a eletrificação da mobilidade. A leitura é que o investidor que enxergar esse conjunto de oportunidades como um portfólio diversificado, em vez de apostar em um único setor, terá maior probabilidade de capturar o valor gerado por esse ciclo de longo prazo.

Governança como pilar de crescimento

O grande desafio apontado por Montezano reside no ambiente interno. O executivo argumenta que o principal entrave para o desenvolvimento nacional não é de natureza econômica, mas institucional. Em sua visão, a eficácia do ESG no Brasil deve ser lida a partir do 'G' de governança, exigindo avanços significativos em segurança pública, combate à corrupção e qualidade das instituições.

Além disso, existe a preocupação com o capital humano. O crescimento sustentado exige uma força de trabalho qualificada, incluindo engenheiros, técnicos e especialistas em licenciamento ambiental, capazes de tirar projetos estruturantes do papel. Sem um ecossistema que forme esses profissionais e garanta segurança jurídica, a abundância de recursos pode permanecer subutilizada.

Desafios de horizonte e execução

O empresariado brasileiro enfrenta a dificuldade histórica de transitar do horizonte de curto prazo para o planejamento de longo prazo. Setores como biometano e combustíveis sustentáveis exigem ciclos de maturação que superam os calendários semestrais comuns ao mercado financeiro. A capacidade de alinhar a estratégia empresarial a essa escala de tempo será o diferencial competitivo nos próximos anos.

As implicações para o ecossistema brasileiro são claras: a necessidade de integrar a inovação tecnológica à base produtiva tradicional. Reguladores e investidores deverão observar como o país equacionará a demanda por agilidade na execução com a solidez necessária para atrair capital estrangeiro, especialmente em um cenário onde o Brasil transita entre as esferas de influência do Ocidente e da Ásia.

Perspectivas para a próxima década

O que permanece incerto é a velocidade com que o país conseguirá implementar as reformas de governança necessárias para sustentar esse crescimento. A janela de oportunidade não é eterna, e a concorrência global por investimentos em ativos reais deve se intensificar, exigindo que o Brasil não apenas possua os recursos, mas demonstre eficiência na sua gestão.

O mercado deve observar, nos próximos anos, quais empresas conseguirão se posicionar como facilitadoras dessa transição, equilibrando a necessidade de retorno imediato com a construção de infraestruturas críticas. A trajetória de riqueza, se concretizada, dependerá de uma execução disciplinada que transforme o potencial geográfico em realidade econômica tangível.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney