O setor elétrico brasileiro atingiu um marco regulatório nesta semana com a definição das regras para a operação de sistemas de armazenamento de energia (SAEs). A medida, consolidada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) após seis anos de discussões, estabelece as diretrizes necessárias para a integração de baterias e usinas hidrelétricas reversíveis à matriz energética nacional. Paralelamente, o Ministério de Minas e Energia oficializou a portaria que viabiliza o primeiro leilão de contratação desses sistemas, previsto para ocorrer em dezembro de 2026, com uma meta inicial de contratação de pelo menos 2 gigawatts (GW).

A necessidade dessa regulação surge em resposta ao rápido crescimento da geração solar e eólica, fontes que, embora fundamentais para a transição energética, apresentam um perfil de produção intermitente. Segundo reportagem do Money Times, a capacidade de armazenar o excedente gerado em momentos de pico e injetá-lo na rede durante períodos de escassez é vista pelo governo como uma ferramenta essencial para garantir a segurança e a estabilidade do fornecimento de energia em tempo real.

O novo marco regulatório

A regulamentação aprovada pela Aneel é abrangente ao classificar diferentes arranjos técnicos como sistemas de armazenamento. Além das baterias autônomas e daquelas integradas a parques geradores, o texto inclui as usinas hidrelétricas reversíveis como parte integrante da solução. Essa diversificação permite que o sistema elétrico ganhe flexibilidade operacional ao utilizar reservatórios para bombear água quando há excesso de oferta e turbiná-la quando a demanda aumenta, otimizando o uso dos recursos hídricos já existentes.

Um dos pontos mais críticos do novo arcabouço é a definição da tarifação pelo uso da rede. A decisão de cobrar o uso do sistema de transmissão e distribuição apenas no descarregamento para baterias autônomas sob despacho do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) busca incentivar a viabilidade econômica dos projetos. Para outros arranjos, a cobrança será dupla — no carregamento e no descarregamento —, o que reflete a tentativa do regulador de equilibrar os custos sistêmicos com a atratividade do investimento privado.

Dinâmicas e incentivos

O leilão de dezembro representa o fim de um período de incertezas que perdurou ao longo de 2024 e 2025, marcado por sucessivos atrasos. O interesse do mercado é elevado, atraindo desde grandes geradoras e transmissoras até fabricantes de equipamentos que buscam consolidar sua presença no país. A inclusão de requisitos de conteúdo local nas diretrizes do certame sugere que o governo pretende fomentar uma cadeia produtiva interna, embora o impacto dessa exigência sobre o custo final dos projetos continue sendo um ponto de atenção para os investidores.

Além da estabilidade, os sistemas de armazenamento prometem reduzir os custos operacionais ao minimizar os cortes de geração, conhecidos como curtailment. Atualmente, o ONS é forçado a limitar a produção de usinas eólicas e solares quando a oferta supera a capacidade de escoamento da rede. Com a implementação dos SAEs, essa energia, que anteriormente seria desperdiçada, poderá ser armazenada e utilizada posteriormente, aumentando a eficiência do sistema como um todo.

Impactos e stakeholders

A introdução massiva de baterias altera a lógica de operação para diversos agentes do setor. Para as transmissoras, o armazenamento pode adiar a necessidade de investimentos em expansão de linhas, desde que bem localizado. Para os consumidores, a expectativa é de uma redução na volatilidade dos preços de curto prazo, embora a conta de energia possa refletir os custos de contratação dessa nova capacidade nos leilões. O alinhamento entre as metas de descarbonização e a viabilidade econômica será o principal desafio para os próximos anos.

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projetam que o Brasil poderá atingir uma capacidade de 1.600 MW até 2030, saltando para 6.600 MW em 2035. Esse crescimento depende não apenas do sucesso do leilão de dezembro, mas da capacidade do mercado em escalar as tecnologias de armazenamento de forma competitiva e eficiente.

Perspectivas futuras

O que permanece incerto é a velocidade com que a indústria nacional conseguirá atender à demanda por equipamentos com conteúdo local, dado que a tecnologia de baterias de grande escala é dominada por poucos players globais. O mercado observará de perto a participação das empresas no leilão de dezembro para medir o apetite real dos investidores frente às novas regras tarifárias.

A transição do modelo de geração centralizada para um sistema híbrido, onde o armazenamento desempenha um papel central, está apenas começando. A capacidade de execução do governo em manter o cronograma do leilão será o primeiro teste real da maturidade desse novo ecossistema elétrico brasileiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times