O BTG Pactual consolidou sua posição como um dos principais investidores em tecnologia financeira na América Latina ao liderar uma rodada de investimento de US$ 85 milhões na ADDI, a maior fintech da Colômbia. O aporte, que contou com a participação do fundo americano Citius, do fundo soberano de Singapura GIC e da gestora Monashees, reforça o interesse de investidores institucionais em modelos de negócio que provaram sustentabilidade operacional em um cenário de custo de capital elevado.

Embora o valor de mercado da companhia não tenha sido oficializado, informações de mercado indicam que a rodada posiciona a ADDI próxima ao patamar de US$ 1 bilhão. Este movimento ocorre em um momento em que a fintech colombiana registra uma receita mensal anualizada (ARR) de cerca de US$ 300 milhões, operando no breakeven desde 2024 e mantendo uma margem bruta superior a 50%.

A estratégia do ecossistema inverso

A ADDI, fundada pelo ex-JP Morgan Santiago Suarez, trilhou um caminho estratégico peculiar ao inverter a lógica tradicional das plataformas de tecnologia financeira. Enquanto gigantes como o Mercado Livre iniciaram sua operação pelo marketplace para, posteriormente, integrar serviços financeiros, a ADDI começou pelo crédito — especificamente o modelo de buy now, pay later — para construir sua base de usuários e dados.

Essa abordagem permitiu que a empresa estabelecesse uma infraestrutura de crédito robusta antes de expandir para o varejo online. A transição atual foca na oferta de produtos bancários completos, incluindo contas correntes e cartões de crédito, alavancando a licença bancária recém-obtida na Colômbia para aprofundar a retenção de clientes em um ecossistema digital integrado.

O papel do BTG Pactual e o modelo Kaspi

Para o BTG Pactual, o investimento reflete a estratégia de growth equity do banco, que busca ativos com potencial de escala relevante mesmo em mercados concentrados. A tese de investimento, defendida por nomes como Gabriela Lima, diretora de capital privado do banco, traça um paralelo com a Kaspi, fintech do Cazaquistão que se tornou um gigante de capital aberto ao dominar a infraestrutura financeira e de varejo de seu país de origem.

A leitura aqui é que a relevância de uma fintech não depende necessariamente de uma presença geográfica vasta, mas da profundidade da integração na vida financeira do usuário. Ao apostar na ADDI, o BTG valida a possibilidade de criar uma franquia dominante na Colômbia, utilizando a solidez do modelo de negócio para garantir retornos em um ambiente macroeconômico ainda desafiador para o setor de tecnologia.

Lições de expansão e foco regional

A trajetória da ADDI também oferece uma visão sobre as dificuldades de escala na América Latina. Após uma breve e custosa tentativa de entrada no mercado brasileiro em 2021, a fintech optou por recuar e concentrar recursos em sua operação doméstica, priorizando a lucratividade frente ao crescimento desmedido. A decisão, segundo a gestão, foi uma resposta direta à mudança no ambiente de captação global, que tornou o capital de risco mais caro e seletivo.

O caso ilustra um amadurecimento do ecossistema de startups latino-americano, onde a prioridade migrou do crescimento a qualquer custo para a construção de fundamentos financeiros sólidos. A presença do BTG como sócio estratégico, contudo, mantém aberta a possibilidade de um retorno ao Brasil, caso o cenário competitivo e o custo de capital tornem a expansão internacional uma alocação de recursos eficiente no futuro.

Perspectivas para o setor financeiro

O futuro da ADDI permanece atrelado à sua capacidade de transição bem-sucedida para um banco completo sem perder a agilidade tecnológica que a define. A concorrência com instituições bancárias tradicionais, que também aceleram sua digitalização, será o próximo grande teste para a plataforma colombiana no mercado local.

Acompanhar a evolução da margem operacional e a penetração dos novos produtos bancários será fundamental para entender se o modelo de ecossistema, inspirado no sucesso da Kaspi, é replicável com a mesma eficácia em outras economias emergentes da região. O mercado aguarda agora a execução dos próximos passos da empresa e o potencial impacto de sua maturidade na consolidação do setor financeiro colombiano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech