O BTG Pactual dobrou a aposta em fundos imobiliários de recebíveis, os chamados FIIs de “papel”, em sua carteira recomendada para setembro. O portfólio, que busca um dividend yield anualizado de 11,8%, agora concentra 47% de sua alocação neste segmento, que investe em títulos de crédito como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs).

Segundo o relatório do banco, a estratégia foi afinada com o aumento de posição nos fundos Kinea Rendimentos Imobiliários (KNCR11) e Kinea Índices de Preços (KNIP11), que juntos passaram a representar 28% da carteira. Em contrapartida, o Pátria Recebíveis Imobiliários (RBRR11) foi retirado da seleção, um movimento tático para evitar incertezas ligadas à sua provável incorporação por outro fundo.

A tese por trás do crédito

A preferência por FIIs de papel, especialmente os geridos pela Kinea, sinaliza uma busca por gestoras com capacidade de estruturar as próprias operações de crédito. Para o BTG, essa característica permite negociar garantias mais robustas e obter taxas mais atrativas, um diferencial em um mercado competitivo. A aposta não é apenas no carrego de juros altos, mas na qualidade da originação do crédito.

O rebalanceamento mostra uma análise criteriosa ativo a ativo. A saída do RBRR11, por exemplo, não foi motivada por uma avaliação negativa da sua carteira, mas pelo risco de mudança na dinâmica de negociação de suas cotas após a fusão. Ao mesmo tempo, o banco dobrou a aposta no Vinci Shopping Centers (VISC11), indicando uma visão positiva sobre seu portfólio diversificado e o potencial de ganho com a reciclagem de ativos.

O jogo duplo do cenário macro

O movimento do BTG ocorre em um ambiente de sinais mistos. Por um lado, a desaceleração da economia e a melhora na inflação abrem espaço para novos cortes na taxa Selic, o que tende a valorizar as cotas dos FIIs e tornar seus dividendos mais atraentes em relação à renda fixa tradicional. O banco enxerga este cenário como favorável, especialmente para os vencimentos mais curtos da curva de juros.

Por outro lado, o risco fiscal permanece como uma âncora, limitando a queda dos juros mais longos. O déficit primário e as incertezas sobre a execução orçamentária mantêm a percepção de risco elevada. Nesse contexto, a forte alocação em FIIs de recebíveis atrelados ao CDI ou à inflação funciona como uma estratégia para capturar rendimentos elevados no curto prazo, enquanto se posiciona para uma eventual melhora no cenário de juros.

A carteira do BTG, que tem superado o índice de referência IFIX, reflete essa leitura sofisticada do mercado brasileiro. Não se trata de uma aposta direcional simples, mas de um portfólio construído para navegar a tensão entre a política monetária expansionista e a fragilidade fiscal. A questão é se esse equilíbrio se manterá nos próximos meses.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times