O café, bebida milenar e onipresente em diversas culturas, tem sido alvo de debates sobre seus efeitos na saúde. Frequentemente associado à cafeína e seus potenciais malefícios, a ciência tem gradualmente desvendado um perfil muito mais benéfico para o organismo. Um estudo recente publicado na renomada revista Nature em 2024, analisando a sequência genômica de mais de 22.000 indivíduos no Reino Unido e nos Estados Unidos, lança luz sobre uma conexão surpreendente: o café desempenha um papel crucial na modulação da microbiota intestinal.

Os pesquisadores observaram que bebedores de café apresentavam uma composição microbiana distinta em comparação com não-bebedores. Notavelmente, a bactéria Lawsonibacter asaccharolyticus mostrou-se oito vezes mais abundante em quem consome café regularmente. Além disso, houve um aumento em outros grupos bacterianos benéficos, como Firmicutes, Actinobacterias, Prevotella, Faecalibacterium e Bifidobacterium. Essas bactérias são conhecidas por seus efeitos metabólicos positivos, incluindo uma maior produção de ácidos graxos de cadeia curta, essenciais para a saúde intestinal e sistêmica.

A ciência por trás dos benefícios

A leitura aqui é que os polifenóis e a fibra solúvel presentes no café atuam como prebióticos, promovendo o crescimento de bactérias benéficas no intestino. A microbiota intestinal, esse complexo ecossistema de trilhões de microrganismos, desempenha funções vitais que vão muito além da digestão. Ela é fundamental para o fortalecimento do sistema imunológico, a regulação da inflamação e a proteção contra patógenos. As bactérias intestinais auxiliam na produção de vitaminas e enzimas, facilitam a digestão de fibras e amidos, e ajudam o sistema imune a distinguir entre ameaças e componentes inofensivos do corpo.

Este estudo em larga escala reforça descobertas anteriores, incluindo um ensaio publicado no mesmo ano na Nature com 62 participantes, que também indicou um aumento na microbiota após a ingestão de café. Embora esse ensaio específico tenha sido financiado pelo Institute for Scientific Information on Coffee, a consistência dos resultados em diferentes metodologias e populações aumenta a confiança nas conclusões sobre os efeitos prebióticos do café.

Desmistificando a cafeína e a quantidade ideal

Um dos coautores do estudo de 2024, Tim Spector, sugere que a quantidade ideal de café para obter esses benefícios, sem incorrer em efeitos negativos, situa-se entre duas e quatro xícaras por dia. Essa recomendação, contudo, deve ser adaptada à tolerância individual de cada pessoa. Um ponto crucial é que os efeitos positivos na microbiota foram observados tanto em café com cafeína quanto em descafeinado, indicando que outros compostos além da cafeína são responsáveis por grande parte desses benefícios. A presença de fibra solúvel, cerca de 1,5 grama por xícara de café filtrado, contribui significativamente para essa ação prebiótica, comparável à ingestão de uma fruta como a tangerina.

Implicações para o consumo e saúde

A tolerância à cafeína varia amplamente entre os indivíduos, e é importante respeitar os limites pessoais para evitar efeitos colaterais como ansiedade ou insônia. No entanto, o fato de o café descafeinado também promover a saúde da microbiota é uma notícia animadora para aqueles sensíveis à cafeína. A adição de leite pode ter um impacto leve na absorção de polifenóis, mas o balanço geral permanece positivo. O que deve ser evitado, segundo os especialistas, é a adição de açúcar, que pode neutralizar os benefícios e até mesmo prejudicar a saúde intestinal. Além disso, a forma como o café é descafeinado também pode influenciar sua salubridade, com alguns métodos de processamento tendo sido objeto de escrutínio por órgãos reguladores.

O que observar daqui para frente

A pesquisa sobre a relação entre café e saúde intestinal está em constante evolução. A confirmação de que o café, em quantidades moderadas, pode ser um aliado valioso para a diversidade e funcionalidade da microbiota abre novas perspectivas. Resta ainda investigar com mais profundidade as interações específicas de diferentes tipos de grãos, métodos de preparo e a influência de outros componentes dietéticos no efeito prebiótico do café. A contínua exploração desses mecanismos promete não apenas desmistificar ainda mais a bebida, mas também integrar o café de forma mais consciente em estratégias de saúde e bem-estar.

A ciência continua a desvendar as complexidades do café, revelando que muito além de um simples impulso de energia, esta bebida ancestral pode ser uma aliada poderosa para a saúde intestinal e metabólica, desde que consumida com moderação e atenção aos detalhes de seu preparo e adição de outros ingredientes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka