Andrew Koller, um operador de câmera freelancer de 31 anos, decidiu dar um passo incomum: comprou uma casa de baixo custo no interior do Japão, na província de Yamagata. A aquisição, que ele chama de "akiya" — termo para casas abandonadas ou subutilizadas no Japão —, não foi motivada por ganhos financeiros. Koller, que reside em Edmonton, no Canadá, vê a propriedade como um portal para uma imersão cultural mais profunda e um refúgio pessoal, distanciando-se da mentalidade ocidental de investimento imobiliário.

O interesse de Koller pelo Japão remonta à infância, com a exposição à cultura pop japonesa. Esse fascínio se intensificou em 2020, quando ele começou a aprender o idioma e, em 2023, realizou sua primeira viagem ao país. A experiência o marcou profundamente, despertando o desejo por uma conexão mais autêntica com a comunidade local, algo que ele sentia faltar em visitas turísticas convencionais. A ideia de possuir uma propriedade fora dos grandes centros urbanos, longe das rotas turísticas tradicionais, surgiu como uma maneira de vivenciar o cotidiano japonês e se envolver ativamente na renovação de um imóvel "esquecido".

Um refúgio cultural, não um ativo financeiro

A decisão de Koller contrasta fortemente com a dinâmica do mercado imobiliário em seu país natal. No Canadá, especialmente em Alberta, a aquisição de imóveis, mesmo para fins de investimento, tornou-se um desafio considerável devido à escalada de preços. Koller, que já possui um imóvel principal avaliado em quase R$ 2,7 milhões (CAD 600.000) e uma propriedade de aluguel adquirida aos 20 anos, reconhece a sorte de sua posição financeira. No entanto, ele enfatiza que a casa japonesa, com um custo de aquisição e taxas de fechamento de aproximadamente CAD 15.000 (cerca de R$ 67.500), não se encaixa na categoria de "ativo".

Koller planeja passar períodos significativos no Japão, visitando a propriedade várias vezes ao ano. A proximidade com uma estação de esqui popular, onde ele pratica snowboard, adiciona um atrativo pessoal. Ele calcula que os custos de viagem e estadia no Japão podem ser mais acessíveis do que em destinos turísticos canadenses, como Banff ou Jasper, tornando a casa um ponto estratégico para lazer. A ideia de alugar a propriedade para terceiros existe, mas o objetivo principal não é a geração de receita substancial, mas sim cobrir os custos de manutenção.

A realidade dos 'akiya' e a experiência de renovação

Após visitar o Japão em outubro de 2025 e fazer uma oferta em novembro, Koller obteve a posse da casa em março de 2026. Ele dedicou o mês de abril à renovação, priorizando a preservação das características originais do imóvel, construído nas décadas de 1960 ou 1970. A casa, com seus tradicionais cômodos em tatame, exigiu um trabalho de DIY (faça você mesmo) que ele descreve como básico, mas suficiente para complementar a estrutura existente sem impor um estilo ocidental.

Atualmente, com a renovação quase concluída (98%), os custos totais, incluindo a compra e a reforma, ultrapassam os CAD 18.000 (cerca de R$ 81.000). Koller adverte contra a expectativa de altos retornos com aluguéis de curto prazo no Japão rural. Ele aponta a forte concorrência de hotéis já estabelecidos e acessíveis, sugerindo que o retorno financeiro é limitado. "Eu só quero cobrir os custos de manutenção, mais do que qualquer coisa", afirma, vendo o aluguel como um meio para esse fim, e não como uma fonte primária de renda.

Implicações para um novo tipo de proprietário

A abordagem de Koller sugere uma mudança de paradigma para estrangeiros que buscam propriedades no Japão, especialmente fora das metrópoles como Tóquio. A leitura aqui é que, em muitas regiões rurais, o valor imobiliário não acompanha a trajetória de valorização vista em mercados ocidentais. A propriedade tende a depreciar com o tempo, o que reforça a visão de Koller de que a aquisição de um "akiya" é mais um investimento em experiência e estilo de vida do que em patrimônio financeiro.

Essa perspectiva pode atrair um nicho de compradores que valorizam a imersão cultural, o DIY e a busca por um refúgio acessível. A renovação de imóveis antigos também se alinha com um movimento global de sustentabilidade e preservação, embora o foco de Koller seja pessoal e cultural. A experiência dele destaca a importância de gerenciar expectativas: o Japão rural oferece uma oportunidade única de conexão e vivência, mas não necessariamente um caminho para enriquecimento rápido através do mercado imobiliário.

O futuro dos 'akiya' e a visão de Koller

O que permanece incerto é a sustentabilidade desse modelo para outros estrangeiros e o impacto a longo prazo na revitalização de comunidades rurais japonesas. A disponibilidade de "akiya" é vasta, mas a capacidade de renová-los e integrá-los à vida local varia. A experiência de Koller é um estudo de caso sobre a motivação por trás da compra de propriedades de baixo custo em locais remotos, onde a recompensa principal é a vivência e a conexão, e não o retorno financeiro.

O futuro dirá se essa tendência ganhará força e como as comunidades locais se adaptarão a um número crescente de proprietários estrangeiros com intenções diversas. Para Koller, o caminho é claro: desfrutar de sua casa renovada, explorar o Japão e provar para si mesmo que é capaz de concretizar ideias que antes ficavam apenas no campo do desejo. A casa é um meio para uma experiência mais rica, um testemunho de que nem todo investimento precisa ser medido em termos monetários.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider