A obsessão pelo capitalismo de acionista, que prioriza a maximização do valor para os acionistas a curto prazo, tem se mostrado uma estratégia falha para o crescimento sustentável das empresas. O recente caso da Kraft Heinz, onde o novo CEO Steve Cahillane suspendeu um plano de desmembramento e anunciou investimentos de US$ 600 milhões em marketing, vendas e P&D, sinaliza uma possível virada. A empresa, que reportou um prejuízo de quase US$ 6 bilhões em 2025 devido a baixas contábeis, já havia sofrido uma desvalorização de US$ 15,4 bilhões em 2019 com suas marcas Kraft e Oscar Mayer, além de cortes de dividendos e investigações contábeis. Até Warren Buffett, um defensor histórico do valor para o acionista, admitiu que a aquisição da Kraft foi um erro.

A Doutrina de Friedman e Seus Efeitos Colaterais

A ideia de que os gestores devem priorizar os desejos dos acionistas, geralmente interpretados como a maximização de lucros e o aumento do preço das ações, ganhou força com o artigo de Milton Friedman em 1970. Essa filosofia, que desconsidera o "bem público" em favor do lucro, transformou as práticas corporativas. A pressão por resultados trimestrais é tamanha que falhar em atingir uma meta mínima pode custar bilhões em valor de mercado. A remuneração de executivos frequentemente está atrelada a métricas de curto prazo, e o horizonte de planejamento da maioria dos CEOs não ultrapassa três anos. Quando há caixa disponível, a tendência é devolvê-lo aos acionistas, seja por meio de dividendos ou recompras de ações – as empresas do S&P 500 gastaram US$ 1 trilhão em recompras em 2025.

O Legado da Inovação Ignorada

Um precursor da crítica de Friedman foi o movimento "Campaign GM", que buscava pressionar a General Motors a considerar o interesse público em questões como segurança e poluição. Friedman e seus aliados rotularam essas demandas como "socialismo puro e irrestrito". Ironia das ironias, enquanto a GM ignorava essas preocupações, montadoras europeias e japonesas investiram em inovação, criando carros mais seguros e menos poluentes. O resultado foi catastrófico para a GM: sua participação de mercado nos EUA despencou de mais de 50% nos anos 1960 para cerca de 16,7% atualmente, após registrar perdas massivas em 1980.

Investidores Especulativos vs. Investidores Estratégicos

O debate sobre a primazia do acionista ignora uma distinção fundamental: investidores de mercado, ao contrário de anjos ou capitalistas de risco, não são necessariamente investidores diretos que assumem riscos produtivos. Muitos investidores veem o mercado de ações como um "cassino", alocando capital especulativamente. O tempo médio de permanência de um acionista em uma ação caiu de cerca de cinco anos nos anos 1970 para apenas 10 meses hoje. Essa volatilidade e a busca por ganhos rápidos levam empresas a priorizar o retorno imediato em detrimento de investimentos de longo prazo que poderiam gerar valor sustentável.

O Dilema da Governança Corporativa

Mesmo quando diretores e executivos reconhecem a importância de práticas que promovem o desempenho organizacional a longo prazo, a pressão por resultados imediatos muitas vezes prevalece. O caso da Vectura, fabricante britânica de inaladores, exemplifica essa tensão. Em 2021, o conselho aprovou a oferta da Philip Morris International (PMI) em detrimento de uma oferta menor do Carlyle Group, visando o melhor preço para a empresa. No entanto, a aquisição por uma empresa de cigarros gerou forte reação de médicos, reguladores e pesquisadores. Em 2024, a PMI vendeu a Vectura por um terço do valor pago, registrando um prejuízo de cerca de US$ 200 milhões, com seu CEO citando o peso das críticas como um fardo.

O modelo de capitalismo de acionista, ao incentivar a exploração de oportunidades de curto prazo em detrimento do investimento em inovação e sustentabilidade, pode estar, na verdade, corroendo o valor que se propõe a criar. A recente mudança de rota na Kraft Heinz e as críticas ao modelo de governança em casos como o da Vectura sugerem que um reequilíbrio em direção a uma visão mais holística do valor corporativo pode ser necessário para garantir a prosperidade futura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company