Carlos Slim Helú, o nome mais influente do empresariado mexicano, vive um paradoxo financeiro. Embora o Índice de Multimillonarios da Bloomberg indique que ele deixou de ser o homem mais rico do mundo em 2013, sua fortuna atual, estimada em 128 bilhões de dólares, é significativamente maior do que no período em que ocupava o topo do ranking global. A trajetória recente do empresário mostra que seu império, ancorado em pilares como a América Móvil e o Grupo Carso, não apenas sobreviveu às mudanças políticas e regulatórias das últimas décadas, como também encontrou caminhos para uma expansão acelerada.
Este crescimento ocorreu mesmo sob regimes políticos distintos, incluindo as gestões de Andrés Manuel López Obrador e o início do mandato de Claudia Sheinbaum. Segundo reportagem da Expansión, a resiliência de Slim diante de crises globais e transformações no mercado financeiro reafirma sua posição como o indivíduo mais acaudalado da América Latina, superando por larga margem outros nomes de peso na região.
O desafio regulatório e a adaptação estratégica
A fortuna de Slim enfrentou turbulências severas durante o sexênio de Enrique Peña Nieto. Naquela época, o patrimônio do empresário caiu de 73 bilhões para 51,8 bilhões de dólares, um reflexo direto do novo ambiente regulatório no México. A criação do Instituto Federal de Telecomunicações e a declaração da Telmex e Telcel como agentes econômicos preponderantes impuseram limites rigorosos à atuação de suas empresas, visando fomentar a concorrência em um setor historicamente concentrado.
Essa fase de restrições forçou o conglomerado a uma reestruturação operacional. A leitura aqui é que a capacidade de adaptação de Slim a essas novas regras, em vez de apenas combater o arcabouço regulatório, foi o que permitiu a recuperação subsequente. O empresário demonstrou que, mesmo com margens vigiadas, a escala de suas operações em telecomunicações continuou sendo um motor de geração de caixa resiliente, capaz de sustentar investimentos em outros braços do grupo.
A recuperação pós-pandemia e a disparidade tecnológica
O período sob a administração de López Obrador foi marcado por uma volatilidade acentuada. Após a queda abrupta provocada pela pandemia de COVID-19, que reduziu sua fortuna a 39,3 bilhões de dólares em abril de 2020, Slim iniciou um ciclo de recuperação agressiva. Em maio de 2024, seu patrimônio atingiu o pico de 104 bilhões de dólares, fechando o sexênio com um ganho líquido de quase 37 bilhões de dólares em relação ao início do governo.
Vale notar que a perda do posto de homem mais rico do mundo não ocorreu por uma falha na estratégia de Slim, mas pela mudança na composição da riqueza global. Enquanto o império de Slim se consolidou em infraestrutura e telecomunicações, bilionários do setor tecnológico, como Elon Musk e os fundadores do Google, experimentaram uma valorização exponencial de suas empresas. Esse fenômeno inflou a barreira de entrada para o primeiro lugar no ranking, transformando o patamar competitivo do mercado de fortunas.
Influência e liderança regional
A solidez de Carlos Slim estende-se além dos números da bolsa. No ranking de 2025 da Expansión, ele figura como o empresário mais importante do México, seguido por seu filho, Carlos Slim Domit, o que sugere um processo de sucessão e manutenção do controle familiar sobre os ativos. A América Móvil, terceira maior empresa do país, permanece como o alicerce dessa hegemonia, competindo diretamente em relevância com gigantes estatais e globais.
Para o ecossistema empresarial latino-americano, a trajetória de Slim serve como um estudo de caso sobre a longevidade de conglomerados tradicionais em mercados emergentes. A capacidade de manter uma posição dominante, mesmo diante de pressões por descentralização econômica, indica que a estrutura de poder construída pela família Slim possui uma inércia própria, pouco suscetível a mudanças de ciclo político de curto prazo.
O horizonte de incertezas
O cenário atual, sob a presidência de Claudia Sheinbaum, traz novos desafios. A volatilidade dos mercados, intensificada por expectativas de políticas protecionistas nos Estados Unidos, forçou ajustes rápidos no portfólio de Slim. A marca de 133 bilhões de dólares atingida em abril de 2026 demonstra, contudo, que o empresário mantém uma agilidade notável para navegar em ambientes de incerteza geopolítica.
A questão que permanece é como a próxima geração de líderes do Grupo Carso lidará com a transição tecnológica e a pressão por maior abertura de mercado. Observar os próximos movimentos de Slim não é apenas acompanhar a riqueza de um indivíduo, mas monitorar a própria estrutura do capitalismo mexicano.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





