O mercado de carros clássicos, tradicionalmente visto como um refúgio para entusiastas e colecionadores, começa a ser estruturado como uma tese de investimento profissional no Brasil. A recente incursão da Meraki Capital, gestora com R$ 2,2 bilhões sob custódia, ao adquirir exemplares raros para o museu Carde em Campos do Jordão, sinaliza uma mudança na percepção desses bens. Longe de serem apenas peças de exibição, esses veículos passam a compor estratégias que visam a preservação de valor e a geração de rendimentos para fundos filantrópicos.

A transação envolvendo um Tucker — modelo com apenas 51 unidades produzidas mundialmente — que pertenceu ao cineasta George Lucas, ilustra a sofisticação que o segmento busca alcançar. Luiz Goshima, CEO da Meraki Capital, defende que a profissionalização da curadoria e dos leilões é o caminho para transformar o antigomobilismo em um ativo financeiro organizado. Segundo reportagem da Bloomberg Línea, o último leilão beneficente do museu Carde movimentou R$ 26 milhões, demonstrando um apetite crescente por ativos reais com valor histórico e escassez comprovada.

A lógica por trás do valor histórico

A ascensão dos carros clássicos como ativo de investimento baseia-se na premissa da escassez absoluta. Diferente de ativos financeiros tradicionais, a oferta de um veículo de coleção é finita e, em muitos casos, decrescente devido ao desgaste ou perda de unidades ao longo do tempo. Esse fator, somado à valorização de modelos icônicos, cria uma dinâmica de proteção contra a inflação que atrai investidores de alta renda em momentos de incerteza nos mercados globais.

Historicamente, o investimento em bens de luxo e colecionáveis sempre ocupou um espaço marginal nas carteiras de family offices. No entanto, a transição para um modelo de gestão que utiliza leilões digitais e plataformas de acesso amplo permite que o mercado ganhe escala. Ao organizar a demanda e garantir a procedência dos itens, gestoras conseguem criar uma camada de liquidez que antes era inexistente, mitigando o risco de iliquidez inerente a esse tipo de ativo.

Mecanismos de precificação e demanda

O mecanismo que sustenta essa tese reside na combinação entre o valor intrínseco do objeto e o valor de mercado gerado pela raridade. Quando uma gestora como a Meraki Capital conecta a gestão de patrimônio a uma finalidade filantrópica, ela cria um ecossistema onde o retorno financeiro é tangibilizado pela performance dos leilões. O sucesso das vendas antecipadas e o volume de lances em eventos especializados reforçam que existe um mercado secundário robusto e disposto a pagar prêmios elevados por peças com histórico documentado.

Além disso, a organização do mercado brasileiro de antigomobilismo permite que investidores diversifiquem suas alocações para além de ações, títulos ou imóveis. A dinâmica aqui é conduzida por leilões que funcionam como mecanismos de descoberta de preço em tempo real, atraindo tanto o investidor que busca diversificação quanto o colecionador que busca valorização de longo prazo. A transparência nos processos de venda é o diferencial que separa o hobby do investimento profissional.

Implicações para o ecossistema de investimentos

Para o mercado financeiro brasileiro, a formalização desse segmento sugere que os investidores estão em busca de ativos alternativos que ofereçam baixa correlação com as bolsas de valores. Com a volatilidade recente atingindo índices de tecnologia, a busca por ativos tangíveis ganha força. A regulação e a organização desses leilões, contudo, permanecem como pontos de atenção para garantir a segurança jurídica e a autenticidade dos bens envolvidos.

Competidores e players do mercado de luxo observam atentamente se essa tendência de profissionalização se manterá. Se o modelo de fundos customizados para fins filantrópicos ou de preservação cultural se provar sustentável, é possível que vejamos a criação de veículos de investimento mais complexos dedicados exclusivamente a ativos colecionáveis, integrando o antigomobilismo ao portfólio de grandes fortunas.

Perspectivas e incertezas

A grande questão que permanece é a escalabilidade desse mercado. Embora o interesse seja crescente, a oferta de carros de alto valor histórico é limitada, o que pode restringir o crescimento do volume total de ativos sob gestão. O monitoramento contínuo da demanda e a capacidade das gestoras em manter a curadoria de alta qualidade serão fundamentais para que o setor não sofra com a saturação ou a perda de valor de modelos menos icônicos.

O horizonte para os próximos anos dependerá de como o investidor brasileiro irá balancear a paixão pelo colecionismo com a necessidade de retornos financeiros consistentes. A consolidação dessa tese dependerá menos da especulação e mais da manutenção do valor cultural e mecânico desses veículos ao longo das décadas. O mercado de carros clássicos, por ora, parece ter encontrado uma rota para sair da garagem e entrar, definitivamente, nas planilhas de alocação de ativos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea