Jim Kavanaugh, fundador e CEO da World Wide Technology (WWT), uma gigante de soluções de TI com receita anual de US$ 20 bilhões, admitiu ter mudado radicalmente sua visão sobre a ética de trabalho e a gestão de pessoas. Por muitos anos, Kavanaugh acreditava que o sucesso exigia um nível de esforço excepcional, medido pela presença física e longas horas de trabalho. Sua filosofia era tão explícita que ele costumava monitorar os carros no estacionamento, especialmente nas sextas-feiras, esperando que poucos saíssem antes das 18h. Essa mentalidade, moldada por sua experiência como atleta profissional e empreendedor, priorizava a dedicação demonstrada pela disponibilidade física no escritório.
No entanto, mais de trinta anos à frente da WWT, Kavanaugh percebeu a necessidade de adaptação. A pandemia de Covid-19 atuou como um catalisador, forçando-o a questionar se a presença física contínua era, de fato, o único indicador de produtividade e comprometimento. Diferentemente de outros líderes empresariais, como Jamie Dimon, do JPMorgan, e Andy Jassy, da Amazon, que impuseram mandatos rigorosos de retorno ao escritório, Kavanaugh optou por um caminho diferente. Ele decidiu abraçar uma abordagem híbrida, reconhecendo que diferentes funções e equipes podem se beneficiar de modelos de trabalho variados, priorizando, acima de tudo, a confiança em seus mais de 12.000 colaboradores.
A evolução da liderança e a era da IA
A transição de Kavanaugh reflete uma mudança mais ampla no mundo corporativo, impulsionada pela tecnologia e pelas novas realidades impostas pela pandemia. A ascensão da inteligência artificial (IA) adiciona uma nova camada de complexidade, exigindo que as empresas inovem e aumentem a produtividade em ritmo acelerado. Contudo, essa necessidade de agilidade não se traduz, necessariamente, em um controle mais rígido sobre onde e como os funcionários trabalham. Especialistas como Kevin Rockmann, professor de gestão na George Mason University, apontam que impor a volta ao escritório pode ser interpretado como uma falta de confiança, gerando receio entre os trabalhadores, inclusive para realizar compromissos pessoais essenciais, como consultas médicas.
O equilíbrio entre autonomia e produtividade
Para Kavanaugh, a chave reside em encontrar um equilíbrio sustentável entre a autonomia concedida aos funcionários e a manutenção de um senso de urgência e motivação. Ele acredita que criar um ambiente que gere entusiasmo e energia pode ser altamente produtivo, mas alerta para o risco de paralisia se essa pressão for excessiva. A gestão moderna, segundo ele, envolve uma arte e uma ciência na construção dessa estrutura. A pandemia também expôs como algumas empresas tendem a focar excessivamente em métricas de entrada – como horas trabalhadas – em detrimento de métricas de saída, como a qualidade do trabalho entregue. A capacidade de trabalhar remotamente permitiu que muitos identificassem práticas gerenciais que antes passavam despercebidas.
Implicações para o futuro do trabalho
Natalia Emanuel, economista da Federal Reserve Bank de Nova York, sugere que as empresas devem se perguntar o que realmente desejam alcançar ao trazer os funcionários de volta ao escritório. Se o objetivo é mentoria, a presença simultânea é crucial. Se for criatividade, talvez sejam necessárias oportunidades de interação interdepartamental, e não apenas a simples exigência de estar presente. A flexibilidade, seja para cuidar de filhos ou para focar em tarefas que exigem concentração, pode ser mais valiosa em formatos variados do que um modelo único de trabalho remoto. Emanuel ressalta que, se o deslocamento é exigido, ele deve ter um propósito claro, especialmente considerando que o trajeto é uma das atividades menos prazerosas do dia, segundo pesquisas de Daniel Kahneman.
O que observar daqui para frente
Na visão de Kavanaugh, a localização do trabalho tornou-se secundária em relação à atitude do funcionário. Curiosidade, dedicação e espírito de equipe são qualidades atemporais que transcendem o ambiente físico. A capacidade de aprender e contribuir para um time, independentemente de onde o trabalho é realizado, continua sendo um diferencial. A gestão eficaz no futuro provavelmente exigirá uma compreensão mais profunda das necessidades individuais e coletivas, adaptando modelos de trabalho para maximizar tanto o bem-estar quanto a performance, em vez de impor uma rigidez que pode minar a confiança e a motivação.
A jornada de Jim Kavanaugh ilustra uma evolução necessária na liderança corporativa, adaptando-se a um mundo em constante mudança onde a confiança e a flexibilidade se tornam pilares para o sucesso sustentável. A forma como as empresas equilibrarão essas novas demandas com a necessidade de produtividade definirá o futuro do ambiente de trabalho.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





