A inteligência artificial (IA) não é apenas mais um bug tecnológico prestes a ser resolvido, como o temido Y2K. Essa é a visão de Tim Walsh, CEO da KPMG nos Estados Unidos, que em entrevista à Fortune, descartou comparações entre a IA e o bug do milênio, classificando o avanço da tecnologia como algo "realmente, realmente grande" e com implicações profundas para o mundo corporativo.
Walsh destacou que a cibersegurança emergiu como o principal risco para a prosperidade das empresas nos próximos três anos, superando inflação e geopolítica. Oitenta e cinco por cento dos CEOs pesquisados pela KPMG acreditam que o crime cibernético afetará suas organizações, e 48% planejam aumentar os investimentos em cibersegurança. Mais alarmante, 56% dos líderes apontam a segurança como um desafio na implementação da IA, superando preocupações com ética, prontidão de dados e custos.
IA e o Novo Fronte de Ciberataques
O próprio avanço da IA está impulsionando a necessidade de maior segurança cibernética. Segundo Walsh, 78% dos CEOs citaram ataques de engenharia social e direcionados potencializados por IA, 76% mencionaram malware e phishing assistidos por IA, e 73% apontaram riscos de dados e privacidade decorrentes do uso de agentes de IA. Diante desse cenário, a KPMG, em parceria com outras empresas, está desenvolvendo modelos de defesa cibernética. Walsh vê isso como uma "oportunidade de negócios multibilionária", especialmente ao considerar a infraestrutura tecnológica antiga, que representa um risco significativo.
Redefinição de Talentos e Estruturas Corporativas
Paralelamente aos desafios de segurança, a IA está forçando uma reestruturação significativa no mercado de trabalho. A pesquisa da KPMG revela que, embora 53% dos CEOs planejem reduções em algumas áreas, 86% estão redesenhando funções, carreiras e estruturas de equipe para promover a colaboração entre humanos e IA. Além disso, 83% focam em reter e requalificar talentos de alto potencial, e 79% estão contratando profissionais com habilidades em IA e tecnologia. Apesar dessas mudanças, a expectativa geral é de crescimento no número de funcionários nos próximos três anos.
Walsh, no entanto, sugere cautela com as porcentagens, enfatizando a direção geral. Ele explica que muitas empresas buscam aumentar a produtividade, o que pode significar "fazer mais com menos pessoas" ou expandir o escopo de atuação. Na própria KPMG, a mudança se concentra na composição da força de trabalho, com um foco crescente em engenheiros e especialistas em IA, e um investimento em treinamento interno em vez de depender exclusivamente de contratações externas.
Agentes de IA: Ferramentas de Aumento, Não Substituição
O CEO da KPMG compartilhou a experiência da empresa com o uso de agentes de IA em plataformas como Clara (auditoria) e Digital Gateway (taxação e consultoria). Ele observou que esses agentes permitem que as pessoas realizem mais tarefas e analisem conjuntos de dados completos, mas ressaltou que a intervenção humana continua sendo essencial. "O que não vemos é a eliminação de corpos inteiros na entrega neste momento", afirmou, indicando que a IA atua como uma ferramenta de aumento de capacidade, e não de substituição completa.
A velocidade com que a tecnologia evolui, com ciclos de três meses se tornando o novo referencial, motivou a KPMG a criar uma unidade de tecnologia e inovação para clientes. Essa incubadora, fora da estrutura principal, visa permitir a inovação e a falha rápida. Walsh reconhece a complexidade de implementar diferentes ferramentas para seus 50.000 funcionários nos EUA, mas enfatiza que a complexidade não deve ser um obstáculo para o progresso.
O futuro do trabalho e da segurança cibernética está intrinsecamente ligado à IA. A visão de Walsh sugere que as empresas que não se adaptarem, investindo em segurança e requalificação de talentos, correrão o risco de ficar para trás em um cenário tecnológico em constante e rápida evolução. A IA não é um evento pontual, mas uma transformação contínua que exigirá vigilância e agilidade constantes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




