A cultura de trabalho conhecida como "996" – trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana – tem sido um tema de debate acirrado no Vale do Silício e em outros centros tecnológicos. Para Hardik Jagda, CEO da Proximity Works, uma empresa de engenharia de IA, essa abordagem não apenas é ineficiente, mas também perde o ponto fundamental da produtividade e do bem-estar.
Jagda, que comanda uma equipe de cerca de 45 pessoas espalhadas globalmente, defende um modelo que se assemelha mais à rotina de atletas de elite. "Eu quero estruturar meu dia para funcionar como um atleta olímpico", afirma. Essa filosofia se traduz em um despertar que pode ocorrer entre 3h e 5h da manhã, um período protegido para decisões estratégicas e foco, longe de e-mails e mensagens. Essa prática, segundo ele, foi fundamental para a concepção e crescimento da Proximity Works, fundada em 2019 com o objetivo de escalar plataformas de streaming de esportes ao vivo.
A inspiração nos atletas de elite
A inspiração de Jagda vem da leitura de autobiografias de empreendedores e atletas. Ele observou que muitos atletas de alta performance dedicam as primeiras horas do dia ao treinamento e ao trabalho, garantindo tempo para descanso e recuperação ao longo do dia. "Notei que os atletas falavam sobre começar o dia cedo para treinar e trabalhar, a tempo de descanso e recuperação ao longo do dia", relata. Ele adaptou essa lição para sua própria rotina, dedicando as primeiras quatro a cinco horas à construção da empresa antes de suas obrigações como CEO começarem, após as 7h, quando as demandas de sua equipe global se intensificam.
Essa dedicação matinal não é para acumular horas de trabalho sem propósito, mas para garantir um bloco de tempo ininterrupto para tarefas de alto impacto. Um exemplo citado por Jagda é a otimização do fluxo de recrutamento de engenheiros, que foi redesenhado para ocorrer em até 72 horas, uma agilidade possível graças a esse tempo protegido nas manhãs. Ele também busca minimizar reuniões virtuais durante o dia, preferindo chamadas de áudio que permitem mobilidade, e tenta encerrar suas reuniões por volta das 14h30, reservando tempo para atividades físicas e tarefas criativas.
Repensando a produtividade e a cultura da equipe
A filosofia de Jagda contrasta diretamente com a cultura 996, que ele considera focada em "volume do que em estrutura". Para ele, a verdadeira produtividade reside em otimizar o dia para o "melhor trabalho", integrando momentos de treinamento (desenvolvimento de habilidades), recuperação (descanso e bem-estar) e aprendizado. "Eu prefiro focar nas estruturas certas do que no volume", declara.
Essa abordagem se estende à gestão de sua equipe. A Proximity Works não monitora as horas de trabalho de seus funcionários. Em vez disso, a empresa cultiva uma "cultura de propriedade", onde os membros da equipe se sentem engajados e responsáveis pelos problemas que resolvem. "Nós não acompanhamos quantas horas a equipe trabalha. É mais sobre uma cultura de propriedade, onde as pessoas realmente se importam com o problema em que estão trabalhando", explica Jagda. Ele reconhece que nem todos são matutinos e que há flexibilidade para aqueles que são mais produtivos à noite, desde que haja um período de sobreposição de cinco a seis horas para colaboração.
Implicações e o futuro do trabalho
A postura de Jagda levanta questões importantes sobre o futuro do trabalho em setores de alta demanda como o de tecnologia. A pressão por resultados rápidos e a competitividade podem levar a modelos de trabalho exaustivos, mas a experiência da Proximity Works sugere que uma abordagem mais estruturada e focada no bem-estar pode ser igualmente, se não mais, eficaz. A adoção de rotinas inspiradas em atletas de ponta, com ênfase em recuperação e foco estratégico, pode ser um caminho para líderes que buscam maximizar o desempenho sem sacrificar a saúde de suas equipes.
O modelo de Jagda, embora exija disciplina pessoal rigorosa, oferece uma alternativa à cultura de "horas extras a qualquer custo". A questão que permanece é se essa abordagem, que prioriza a qualidade do tempo e a estrutura sobre a quantidade de horas trabalhadas, pode ser escalada e adotada de forma mais ampla, promovendo um ambiente de trabalho mais sustentável e produtivo a longo prazo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





