A Confederação Nacional da Construção (CNC) da Espanha formalizou um alerta urgente ao governo central sobre o risco iminente de paralisação e abandono de obras públicas e privadas. Segundo a entidade, a escalada dos custos de produção, agravada por novas previsões de inflação do Banco de Espanha, coloca em xeque a viabilidade financeira de projetos em todo o país.

A patronal enviou uma carta ao governo solicitando uma alteração na Lei de Contratos do Setor Público e na Lei de Desindexação. O objetivo central é implementar mecanismos automáticos de revisão de preços, garantindo que os contratos consigam absorver as variações inflacionárias sem que as empresas precisem interromper o cronograma das obras.

Pressão sobre a viabilidade operacional

A crise energética, acentuada pela instabilidade no Oriente Médio, é o principal motor da preocupação da CNC. Dados da entidade indicam que 90% das construtoras espanholas já sentem o impacto direto no aumento dos custos, com 56% reportando uma desaceleração clara em suas atividades. A situação é considerada crítica, pois os custos energéticos compõem cerca de 30% da estrutura total de gastos do setor.

A CNC argumenta que, sem um ajuste normativo, a exclusão do setor de planos anticrise governamentais pode ser fatal. A entidade ressalta que obras de curta duração, como a manutenção de estradas, são as mais vulneráveis, já que não possuem cláusulas de revisão de preços e enfrentam sobrecustos que atingem até 30% em projetos de reabilitação.

Mecanismos de ajuste e risco de licitações vazias

A falha em alinhar os contratos públicos aos preços de mercado gera um efeito cascata no setor. A patronal alerta que a rigidez atual dos contratos resulta frequentemente em licitações desertas ou na necessidade de abandono de obras já iniciadas. Quando o preço contratado não cobre os insumos, o equilíbrio econômico do projeto é rompido, tornando impossível para as construtoras manterem o ritmo ou a qualidade prometida.

A proposta da CNC é que o Ministério da Fazenda impulsione as mudanças necessárias antes de 30 de junho, data em que expiram as medidas vigentes. O setor defende que a revisão de preços deve ser encarada como uma medida essencial para proteger o emprego, visto que 22% das empresas já admitem possíveis cortes na força de trabalho caso a escalada de custos persista.

Tensões na infraestrutura e stakeholders

O impasse afeta não apenas as construtoras, mas também o cronograma de infraestrutura nacional e a habitação. Reguladores e gestores públicos enfrentam a pressão de equilibrar o orçamento fiscal com a necessidade de manter a execução das obras prometidas. Para o mercado, a incerteza cria um ambiente de cautela que inibe novos investimentos e encarece o custo do capital para as empresas do setor.

O paralelo com o ecossistema brasileiro é imediato, onde a volatilidade de insumos e a rigidez de contratos públicos também representam desafios históricos. A discussão espanhola reflete a dificuldade global de manter a execução de grandes projetos de engenharia em contextos de inflação persistente e choques externos de oferta.

Outlook e incertezas

A eficácia das futuras iniciativas de apoio econômico dependerá da capacidade do governo em negociar com a patronal. A expectativa do setor é que o próximo pacote de medidas incorpore soluções que deem resposta direta à realidade inflacionária, evitando que a infraestrutura nacional se torne a principal vítima do desequilíbrio financeiro.

O que resta observar é se a pressão da CNC será suficiente para alterar a postura do governo ou se a rigidez normativa prevalecerá, forçando uma renegociação individualizada e lenta de cada contrato público. A estabilidade das operações de reabilitação de estradas no verão europeu servirá como um termômetro imediato para a eficácia das medidas adotadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España