A revista americana Art in America, uma das vozes mais influentes do setor, usou sua edição de outono para enviar um recado direto ao mundo da arte: é preciso parar de buscar o conforto. Citando um ensaio do crítico Bob Nickas, a publicação diagnostica uma tendência crescente a um “escapismo paliativo”, com obras que oferecem pouco “perigo de perturbação” em um mundo politicamente conflagrado.

Como contraponto, a revista elegeu seus cinco “Ícones” anuais, artistas que, segundo a publicação, falam diretamente ao nosso tempo justamente por se recusarem a ser paliativos. A tese é clara: em tempos desafiadores, a arte precisa ter “seriedade de propósito”, e não servir como um analgésico estético. A seleção não é apenas uma lista de homenagens, mas uma declaração de princípios sobre o papel da arte hoje.

Ícones da perturbação

O grupo de artistas escolhidos pela Art in America representa diferentes formas de incômodo. A capa da edição, uma obra de Janine Antoni, faz alusão à famosa cena do olho cortado no filme Un Chien Andalou, de Buñuel e Dalí, um convite para manter os olhos abertos, não importa o quão desconfortável seja a visão. O trabalho de Walid Raad, por sua vez, parece decorativo à primeira vista, mas uma inspeção próxima revela que as fitas coloridas são, na verdade, declarações sobre exposições canceladas por sua afiliação com a Palestina.

A seleção também inclui o pintor William T. Williams, cuja abordagem à abstração nos anos 70 abriu caminho para artistas negros desenvolverem linguagens individuais dentro da vanguarda; a escultora Mary Miss, conhecida por suas intervenções diretas na paisagem urbana; e a pintora Jutta Koether, cujas telas são descritas como “tempestades de imagens que se recusam a se aglutinar”. O fio condutor é a recusa em entregar uma experiência passiva ou facilmente digerível.

Do cringe ao circuito

Para além da tese central, a edição explora outras zonas de atrito cultural e de mercado. Um ensaio de Eugenie Brinkema disseca a “cultura do cringe”, investigando o que exatamente constitui essa sensação de vergonha alheia e desconforto — um sentimento que, de certa forma, dialoga com a perturbação proposta pelos artistas icônicos.

Ao mesmo tempo, a revista não ignora as engrenagens do mercado. Uma seção compara as feiras Frieze London e Art Basel Paris, analisando a competição entre os dois eventos de outono. Essa justaposição entre a crítica conceitual e a realidade comercial do circuito reforça a complexidade do ecossistema, onde o debate sobre o propósito da arte coexiste com as dinâmicas de poder e capital.

A edição da Art in America funciona, portanto, como um termômetro. Ela aponta para uma insatisfação com o status quo estético e defende uma arte que se engaja com as fraturas do presente. Não se trata de uma busca por polêmica gratuita, mas por relevância e ressonância em um mundo que já oferece escapismo em excesso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews