A indústria jurídica global, historicamente marcada pela estabilidade e pela resistência a mudanças, encontra-se diante de uma disrupção sem precedentes. Segundo artigo da CEO da Cooley, Rachel Proffitt, a inteligência artificial não representa apenas um ganho marginal de produtividade, mas uma força que altera a própria fundação do exercício do direito. A tese central é que escritórios de advocacia que tratam a tecnologia meramente como uma ferramenta de eficiência correm o risco de obsolescência, enquanto aqueles que redesenham seus modelos de negócio terão a chance de liderar o mercado.
O setor sempre operou com base em precedentes e um modelo de precificação atrelado ao tempo gasto, o sistema conhecido como hora faturável. Proffitt aponta que esse paradigma está em colapso. Enquanto os escritórios se concentravam em insumos, os clientes passaram a exigir resultados, alinhamento estratégico e previsibilidade, criando uma desconexão que a IA apenas tornou mais evidente.
O fim da era da hora faturável
O modelo de negócio da advocacia de elite, ou Big Law, foi construído sobre uma estrutura de incentivos que prioriza o volume de horas. Historicamente, essa métrica serviu como medida de valor, mas a introdução de sistemas de IA capazes de automatizar tarefas rotineiras e repetitivas expõe a fragilidade dessa lógica. Se o trabalho que antes demandava horas de advogados juniores pode ser executado em segundos, o valor da entrega não pode mais ser calculado pelo tempo.
A transição exige uma mudança de mentalidade para a precificação baseada em valor, onde o custo é atrelado à mitigação de riscos, velocidade e resultados de negócios. A adoção dessa nova realidade não será uniforme, mas a direção é clara: o tempo dedicado ao processo perderá seu posto de principal indicador de sucesso financeiro para os grandes escritórios.
A redefinição do papel do advogado
A automação de tarefas repetitivas não elimina a necessidade de advogados, mas redefine onde eles agregam valor. A expertise humana, o julgamento crítico e a capacidade de construir relacionamentos de confiança tornam-se os ativos mais preciosos. O desafio para a gestão é integrar a inteligência humana à tecnologia para resolver problemas complexos que a IA, por si só, não consegue abarcar.
Isso altera profundamente como os escritórios devem recrutar, treinar e reter talentos. A próxima geração de profissionais será diferenciada pela capacidade de combinar o domínio da tecnologia com as tradições da prática jurídica, exigindo que as firmas abandonem o conservadorismo que pautou a gestão nas últimas décadas.
Tensões competitivas e novos entrantes
A concorrência no setor deixou de ser uma disputa restrita aos incumbentes. Empresas de tecnologia jurídica e firmas nativas em IA estão entrando no campo de batalha diariamente, desafiando a hegemonia das estruturas tradicionais. A pressão por inovação é constante, e a inércia dos líderes de Big Law pode resultar em uma perda significativa de participação de mercado para competidores mais ágeis.
Para o ecossistema jurídico, isso implica uma necessidade urgente de experimentação deliberada. O sucesso dependerá da capacidade de manter os negócios atuais operando enquanto se constrói, simultaneamente, o futuro da prestação de serviços jurídicos sob um novo paradigma tecnológico.
O futuro sob incerteza
O que permanece incerto é a velocidade com que o mercado adotará essas mudanças e qual será o custo da transição para aqueles que demorarem a reagir. A liderança das firmas precisará navegar em um cenário de trial and error, onde a incerteza é a única constante.
O setor observa agora se os grandes nomes da advocacia terão a convicção necessária para liderar essa transformação ou se serão forçados a seguir caminhos traçados por terceiros. A disrupção exige mais do que tecnologia; exige a coragem de repensar as bases da profissão.
A advocacia caminha para um modelo onde a inteligência artificial será o alicerce operacional e a expertise humana, o diferencial estratégico. A transição é um teste de liderança para os sócios que gerenciam firmas de grande escala. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





