O varejo brasileiro prepara-se para uma das datas mais rentáveis do calendário comercial com expectativas de crescimento expressivo. De acordo com dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o Dia dos Namorados deve movimentar R$ 26 bilhões este ano, representando uma alta de 20% em comparação ao ciclo anterior. O otimismo do setor é sustentado por um aumento na intenção de compra, que subiu de 57% para 61% entre os consumidores brasileiros.

Apesar da proximidade com o início da Copa do Mundo, a XP Investimentos avalia que o torneio não deve representar um risco relevante para o desempenho das vendas. A tese central é que as dinâmicas de consumo para ambas as ocasiões possuem naturezas distintas, permitindo que o varejo capture demanda sem sofrer canibalização direta de orçamento, mesmo com a coincidência temporal das festividades.

Dinâmicas de consumo e o fator renda

Embora a XP descarte um impacto generalizado, a análise aponta nuances importantes sobre o comportamento das classes de menor renda. Para este segmento, o início da Copa pode criar ventos contrários, uma vez que o orçamento familiar é mais sensível a gastos discricionários imediatos. A destinação de recursos para apostas ou encontros sociais focados nos jogos da seleção brasileira pode competir diretamente com a compra de presentes.

Além da questão orçamentária, há uma disputa por share of wallet envolvendo itens temáticos, como as camisas da seleção. Esse fenômeno sugere que o varejo de vestuário e acessórios precisa calibrar suas estratégias para não perder espaço para produtos de conveniência ou itens de entretenimento ligados ao futebol. A resiliência do setor, contudo, é reforçada por campanhas de marketing cada vez mais integradas e diversificadas.

Estratégias das grandes varejistas

As empresas do setor têm utilizado o Dia dos Namorados como uma plataforma de marketing ampliada, indo além da oferta de produtos básicos. A Azzas, por meio da marca Arezzo, exemplifica essa abordagem com parcerias estratégicas, como a collab com a Fila, que busca atrair um público que valoriza a intersecção entre moda, esporte e lifestyle. Essa estratégia de diversificação de portfólio visa capturar um consumidor mais exigente e conectado às tendências globais.

No segmento de beleza, Natura e O Boticário seguem apostando em campanhas de alto impacto com influenciadores e celebridades para consolidar a preferência do consumidor. O objetivo é transformar o presente em uma experiência de marca, mitigando a sensibilidade ao preço e reforçando o valor agregado. Essas ações demonstram que, mesmo em um cenário macroeconômico pressionado, a execução comercial precisa ser precisa para garantir a conversão.

O papel do e-commerce e do mercado de usados

O comércio digital mantém sua trajetória de crescimento, com a ABComm projetando R$ 10 bilhões em vendas online, um avanço de 11%. A leitura é que este crescimento é impulsionado principalmente pelo volume de transações, enquanto o ticket médio permanece estável, indicando uma migração contínua de consumidores para canais digitais. Ainda assim, as lojas físicas continuam sendo a preferência majoritária, funcionando como pontos de conveniência e experiência.

Outro movimento que ganha tração é o mercado de segunda mão. Cerca de 41% dos consumidores, com destaque para a Geração Z, consideram a compra de itens usados. A motivação vai além da acessibilidade financeira, tocando em um apelo vintage que ressoa com novos valores de consumo. Esse mercado paralelo começa a ser visto não como uma ameaça, mas como uma alternativa de mercado que atende a demandas específicas de sustentabilidade e custo-benefício.

Perspectivas para o setor

O que permanece incerto é a sustentabilidade desse ritmo de consumo ao longo do segundo semestre, dado que o varejo ainda depende fortemente de fatores macroeconômicos e da disponibilidade de crédito. O monitoramento do fluxo estrangeiro e a influência das variáveis domésticas serão determinantes para a performance das ações de varejo na bolsa nos próximos meses.

O mercado observará atentamente se a estratégia de marketing agressiva conseguirá manter o ticket médio estável diante de uma inflação que, embora controlada, ainda impacta o poder de compra. A capacidade das empresas de equilibrar margens operacionais com a necessidade de volume será o principal indicador de sucesso nesta temporada.

O cenário para o Dia dos Namorados reflete um varejo que tenta se reinventar diante da fragmentação da atenção do consumidor. A convivência entre o consumo tradicional, o avanço do digital e a ascensão dos itens de segunda mão desenha um mercado mais complexo. Resta saber se o otimismo das projeções se traduzirá em margens sólidas para os lojistas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney