A Coreia do Sul enfrenta uma crise demográfica sem precedentes. Em 2023, a taxa de fecundidade despencou para 0,72 filhos por mulher, um recorde histórico que se manteve em patamares preocupantemente baixos nos anos seguintes, mesmo com um leve repique para 0,80 em 2025. Essa tendência, definida pelo ex-presidente Yoon Suk Yeol como uma "emergência nacional", ameaça a produtividade e a sustentabilidade econômica e social do país, com projeções sombrias para o futuro. A população de 65 anos ou mais pode chegar a 40% até 2050, uma das maiores proporções globais.

O Incentivo Financeiro como Solução

Diante da ineficácia de décadas de políticas governamentais, que incluíam subsídios, auxílio moradia e licenças parentais, o setor privado decidiu intervir de forma ousada. Empresas como a Booyoung, um dos grandes conglomerados do país, passaram a oferecer "cheques bebê" de até 100 milhões de wones (aproximadamente US$ 75.000) por cada filho nascido. Algumas empresas até aplicam o benefício retroativamente. A iniciativa, embora pareça absurda para muitos, já levou funcionários a planejar a ampliação da família com o único propósito de receber o bônus, como no caso de Hong Ki, gerente de comunicações da Booyoung, que teve um segundo filho após a implementação da medida.

A Lógica por Trás dos Bônus

Os generosos incentivos financeiros não nascem de um altruísmo corporativo, mas de uma consciência aguda sobre a iminente escassez de mão de obra. A Coreia do Sul observa com apreensão o futuro de países como o Japão, que já lida com um mercado de trabalho envelhecido e dificuldades para preencher vagas. Ao oferecer benefícios tão atrativos, as empresas não apenas buscam aumentar a taxa de natalidade, mas também se posicionam como empregadoras de ponta, atraindo e retendo talentos qualificados que valorizam a conciliação entre vida pessoal e profissional. A estratégia visa, em última instância, garantir a força de trabalho necessária para sustentar suas operações.

Primeiros Sinais e Perguntas em Aberto

As medidas combinadas do governo e do setor privado parecem ter surtido um efeito modesto. A taxa de fecundidade subiu para 0,80 em 2025, um avanço significativo após anos de declínio contínuo. Os casamentos também apresentaram um crescimento, sinalizando uma possível transformação cultural e social. No entanto, a cifra ainda está longe do nível de reposição populacional de 2,1 filhos por mulher. Resta saber se esses incentivos financeiros são uma solução sustentável a longo prazo ou apenas um paliativo temporário para uma crise demográfica complexa, cujas raízes se aprofundam em fatores sociais e econômicos que vão além do bolso.

O futuro da Coreia do Sul dependerá de sua capacidade de equilibrar o crescimento econômico com a sustentabilidade social, em um cenário onde o custo de criar um filho se tornou um fator decisivo para a decisão de formar uma família. A aposta em bônus bilionários é um experimento social e econômico de grande escala, cujos resultados definitivos ainda estão por vir.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka