A indústria de smartphones enfrenta uma queda acentuada nas remessas globais, com estimativas indicando um recuo de pelo menos 20% no terceiro trimestre do ano. A principal causa é a crise de memória, exacerbada pela crescente demanda por componentes para inteligência artificial (IA). Os custos de memória dispararam cerca de 350% desde o ano passado, segundo a IDC, pressionando as margens dos fabricantes e forçando-os a aumentar os preços e reduzir a produção de modelos de entrada.

Preço da IA e o Impacto nos Handsets

As remessas globais de smartphones podem ter caído 22% no terceiro trimestre, de acordo com a IDC, ou 20%, segundo a Omdia. O volume total ficou em torno de 255 milhões de unidades. Essa retração significativa reflete a dificuldade dos fabricantes em absorver os custos crescentes de componentes essenciais, especialmente as memórias, que tiveram um aumento sequencial de cerca de 12% no último trimestre, embora menor que os saltos de 50% a 100% em trimestres anteriores. A alta persistente desses componentes, somada à de outros, impacta diretamente a viabilidade de produzir aparelhos mais acessíveis, levando as empresas a priorizarem modelos de maior valor agregado.

Polarização do Mercado e Foco no Premium

A crise de componentes intensificou a polarização do mercado. Samsung e Apple, líderes do setor, já respondem por aproximadamente 45% das remessas globais, um aumento de 8 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Essa consolidação se dá em parte porque os players menores e mais sensíveis a custos têm maior dificuldade em competir. A Omdia prevê que a queda nas remessas continuará em 2026 e 2027, com recuos de 12% e 6%, respectivamente. A expectativa é que o alívio para a crise de memória só ocorra a partir de 2028, quando a demanda e a oferta de componentes devem se equilibrar mais. Enquanto isso, os consumidores podem se acostumar a preços mais elevados, abrindo portas para modelos premium.

Estratégias de Sobrevivência

Para mitigar os efeitos da crise, algumas fabricantes já adotam estratégias como a substituição de painéis de display, sensores ou módulos de radiofrequência (RF) por opções mais baratas. A IDC também aponta para uma mudança estrutural de custos no mercado, com poucas perspectivas de recuperação antes de 2028. As empresas que conseguirem adaptar seus produtos e estratégias de precificação estarão mais bem posicionadas para capturar participação de mercado quando a situação se normalizar. Investimentos em parcerias de distribuição e no desenvolvimento de dispositivos premium são vistos como cruciais para emergir mais fortes no cenário pós-crise.

Perguntas em Aberto

O cenário atual levanta questões sobre a sustentabilidade do modelo de negócios de smartphones de baixo custo e a velocidade com que os consumidores se adaptarão aos novos patamares de preço. A resiliência da demanda por dispositivos de mais de US$ 400, que antes se esperava ser maior, agora é colocada à prova. A capacidade de inovação em outras áreas do aparelho, além da memória, será fundamental para manter o interesse do consumidor e justificar os investimentos em modelos de ponta. A dinâmica futura dependerá da evolução da demanda por IA e da capacidade da cadeia de suprimentos de expandir a produção de chips de memória.

O impacto da crise de memória nos smartphones é um reflexo da disputa global por componentes, onde a IA se tornou um motor de demanda sem precedentes. A adaptação dos fabricantes, o foco em segmentos de maior valor e a espera por um equilíbrio na cadeia produtiva definem o panorama atual de um mercado em transição.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register