Existe um modo de produção cultural que atravessa todos os meios e não se responde a uma única arte. Ele é encontrado no filósofo que oferece a complexidade como um tipo de bálsamo, no historiador que narra a totalidade da espécie em uma tarde, no ensaísta que dispensa o cânone como consolo emocional, no compositor cuja melodia é a confissão de sua própria cumplicidade, no pintor de janelas iluminadas e clima ameno, de um mundo do qual o frio foi retirado pela tinta. A lista é longa, os nomes são irrelevantes, pois são exemplos de figuras que compartilham nem técnica nem tradição, mas apenas uma função: a produção de artefatos cuja virtude primária é a capacidade de fazer o receptor se sentir inteligente, reconhecido ou refinado sem incorrer no custo da dificuldade.

Esses criadores, sejam eles filósofos, historiadores, ensaístas, músicos ou artistas visuais, compartilham um objetivo comum: oferecer um tipo de conforto intelectual e emocional que não exige esforço do público. A complexidade apresentada pelo filósofo é superficial, a narrativa histórica é simplificada a ponto de se tornar um mero entretenimento, e o cânone artístico é oferecido como um refúgio, não como um desafio. O resultado é uma cultura que, em vez de expandir os horizontes e a compreensão, apenas reforça o status quo e a autocomplacência do receptor. Essa produção cultural, em vez de estimular o pensamento crítico e a reflexão profunda, busca apenas validar o espectador, oferecendo uma espécie de espelho que reflete uma imagem desejada, mas irreal.

Dwight Macdonald, em sua análise sobre o "Masscult e Midcult", alertou para a natureza insidiosa do 'middlebrow'. Ao contrário do kitsch, que é abertamente popular e muitas vezes de mau gosto, o 'middlebrow' se disfarça de alta cultura, mas a dilui e a vulgariza. Ele oferece uma versão acessível e despojada de complexidade, um atalho para a sofisticação que evita os perigosos, mas recompensadores, caminhos da verdadeira erudição e da apreciação estética profunda. Essa forma de produção cultural, ao cortar todos os meios, encontra seu público em todos os lugares, promovendo uma homogeneização do gosto e do intelecto.

As implicações dessa tendência são profundas. Ao priorizar a tranquilidade em detrimento do desafio, a produção cultural contemporânea corre o risco de atrofiar a capacidade crítica do público. A arte e o pensamento que não nos forçam a questionar nossas próprias crenças ou a confrontar realidades desconfortáveis tornam-se meros adornos, incapazes de promover o crescimento pessoal ou a mudança social. A função primária da cultura, que deveria ser a de expandir a consciência e a empatia, é subvertida, transformando-se em um mecanismo de autovalidação e conformismo.

O perigo reside na sutileza com que essa 'reasseguração falsa' opera. Ela não é óbvia como o entretenimento de baixa qualidade, mas sim uma versão diluída e aparentemente sofisticada do mesmo princípio: agradar sem desafiar. A verdadeira alta cultura, por outro lado, exige engajamento, esforço e, muitas vezes, um confronto com o desconhecido ou o desconfortável. A produção que evita essa dificuldade, por mais bem-intencionada que pareça, acaba por empobrecer a experiência humana em vez de enriquecê-la.

O que resta, então, é uma vasta paisagem de produções culturais que oferecem a ilusão de profundidade e inteligência, mas que, em última análise, nos deixam exatamente onde estávamos, mas com uma sensação equivocada de ter avançado. A questão que permanece é se a sociedade continuará a buscar esse conforto superficial ou se haverá um retorno à valorização do desafio intelectual e estético que a verdadeira cultura proporciona. A arte que nos conforta sem nos desafiar pode ser agradável, mas raramente é transformadora.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Liberties Journal