A seguradora Mapfre e o gigante do varejo Carrefour dão início nesta semana a uma parceria estratégica na Espanha. A partir de agora, a Mapfre passará a distribuir seus produtos de seguros através da rede de distribuição do Carrefour, que atuará como uma agência vinculada, conforme anunciado em comunicado conjunto.

O movimento materializa uma das tendências mais observadas no setor: o ‘embedded finance’, ou finanças embutidas. A tese é que, ao integrar produtos financeiros à jornada de um cliente em um ambiente não-financeiro — neste caso, o supermercado —, as empresas podem destravar novos fluxos de receita e aumentar a fidelização. A parceria não é apenas um novo canal de vendas, mas um teste sobre a capacidade de uma marca de varejo de estender sua confiança para o complexo mundo dos seguros.

A Gôndola como Balcão de Negócios

Para o Carrefour, a lógica é clara: monetizar sua vasta e fiel base de clientes. Com mais de 11 milhões de sócios em seu programa de fidelidade, El Club Carrefour, a empresa possui um ativo de dados e relacionamento que vai muito além da venda de alimentos. Oferecer seguros é uma forma de agregar serviços de maior margem ao seu portfólio, transformando uma relação puramente transacional em um vínculo de longo prazo. A oferta inicial, com produtos como seguros de acidentes, de vida (decessos) e um curioso seguro para a cesta de compras, é um primeiro passo para testar a aderência.

Do lado da Mapfre, a aliança representa um atalho para um canal de distribuição massivo e de baixo custo de aquisição, contornando a dependência de corretores tradicionais. A capilaridade do Carrefour, tanto física quanto digital, permite que a seguradora alcance um público que talvez nunca procurasse ativamente uma apólice. O desconto de 3% no ‘ChequeAhorro’ do Carrefour para quem contrata ou renova os seguros funciona como o incentivo que conecta os dois mundos.

O Varejo Ataca (de novo)

O movimento ecoa estratégias já vistas no Brasil, onde grandes varejistas como Magazine Luiza e Via avançaram agressivamente sobre o território dos serviços financeiros. A diferença aqui é o foco cirúrgico em seguros, um produto que exige uma abordagem de venda mais consultiva e baseada em confiança. O desafio será simplificar a proposta de valor a ponto de ela fazer sentido no contexto de uma compra de supermercado.

A iniciativa hispânica servirá de termômetro. Conseguirá uma marca de varejo ser percebida como um provedor confiável de produtos financeiros complexos? Ou a estratégia se limitará a produtos de baixa complexidade e contratação por impulso? A resposta definirá a próxima fronteira da competição entre bancos, seguradoras, fintechs e, agora, os gigantes do varejo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España