A Dasa decidiu pagar mais caro para ganhar tempo. A companhia, dona de laboratórios como Delboni e Lavoisier, antecipou a rolagem de R$ 700 milhões em debêntures que venceriam em 2027, empurrando o prazo para meados de 2028. O custo da operação foi um salto na taxa de juros, de CDI mais 1,06% para CDI mais 2,75%. A dívida ficou mais cara, mas o calendário de vencimentos, mais limpo.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO Rafael Lucchesi enquadrou o movimento não como uma necessidade, mas como uma escolha. “Isso foi uma opção nossa. A gente quis, por questões macroeconômicas: a eleição agora, a taxa de juro ainda alta, e uma questão até de conservadorismo nosso”, afirmou. A leitura é que a Dasa está comprando previsibilidade. A empresa prefere absorver um custo financeiro maior agora para evitar a necessidade de ir a mercado em um ambiente potencialmente mais adverso nos próximos anos.
O custo da previsibilidade
Os números do balanço mostram que a preocupação da Dasa não é com o curto prazo. A companhia encerrou o segundo trimestre com R$ 959 milhões em caixa, o suficiente para cobrir com folga os vencimentos de R$ 423 milhões em 2026 e R$ 360 milhões em 2027. O desafio começa em 2028, quando uma muralha de R$ 1,34 bilhão em dívidas vence, seguida por R$ 1,65 bilhão em 2029. Ao rolar os R$ 700 milhões, a gestão ganha fôlego para navegar a travessia.
Este movimento se insere em um esforço maior de arrumação financeira. A dívida líquida caiu de R$ 10 bilhões para R$ 5,6 bilhões em um ano, fruto de uma série de vendas de ativos. Contraditoriamente, o indicador de alavancagem reportado subiu para 3,52 vezes o Ebitda. A gestão argumenta que o número está distorcido por um efeito contábil e que a alavancagem real, de 2,91 vezes, segue em queda. A rolagem da dívida é mais uma peça nesse complexo quebra-cabeça de saneamento do balanço.
O longo prazo e a sombra da Amil
Lucchesi afirma que “o acionista não pressiona a gente por questões de curto prazo”. A frase é crível. Com a família fundadora Godoy Bueno controlando mais de 75% do capital, a administração tem o respaldo necessário para tomar decisões de longo prazo que poderiam ser questionadas em uma empresa de capital pulverizado. Pagar mais juros hoje para ter tranquilidade amanhã é uma dessas decisões.
Parte fundamental da equação de longo prazo é a joint venture com a Amil na Rede Américas, que começa a mostrar resultados operacionais positivos. No entanto, uma variável importante está fora do controle da Dasa: rumores de mercado, reportados pela própria Bloomberg Línea, indicam que a Amil pode ser vendida. Uma troca de controle na sócia da JV adicionaria uma camada de incerteza a um dos pilares da reestruturação da Dasa, tornando a busca por estabilidade financeira ainda mais premente.
Com a dívida de curto prazo equacionada, a gestão da Dasa ganha tempo para focar na operação e na melhora das margens. A aposta é que, quando os grandes vencimentos chegarem a partir de 2028, a companhia estará em uma posição mais robusta para honrá-los ou renegociá-los em melhores condições. É um movimento estratégico que troca custo por tempo, uma aposta calculada no futuro da própria execução.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





