Pode parecer um paradoxo dedicar uma vida acadêmica a dois polos aparentemente opostos: de um lado, o idealismo imaterialista de George Berkeley, o filósofo irlandês para quem existir é ser percebido; do outro, o mapeamento meticuloso da descrença e do ateísmo na Grã-Bretanha, de Hobbes a Russell. Para David Berman, no entanto, não havia contradição. Havia apenas o vasto campo do pensamento humano sobre o transcendente — e sua ausência.

Berman, professor emérito e Fellow do Trinity College Dublin, faleceu no final de julho. Nascido no Brooklyn, ele encontrou sua casa intelectual na Irlanda, onde lecionava desde 1968. Sua carreira foi um testemunho da profundidade que pode ser alcançada quando se examina uma questão por todos os seus ângulos, incluindo o seu avesso.

O historiador da descrença

A obra magna de Berman, "A History of Atheism in Britain" (1988), não é um panfleto, mas um trabalho de historiador. Ele não buscava converter, mas compreender. O livro traça a evolução do ateísmo não como uma falha moral ou um desvio, mas como uma posição filosófica com sua própria linhagem, argumentos e protagonistas. Ao tratá-lo com seriedade acadêmica, Berman ajudou a legitimar o estudo da secularização como um campo rigoroso. Para ele, entender por que alguém deixa de acreditar é tão filosoficamente relevante quanto entender por que alguém acredita. Sua análise não era sobre a vitória de um lado, mas sobre a mecânica do próprio debate, as premissas, os pontos de virada e as consequências culturais de se pensar um mundo sem Deus.

A alma irlandesa

Em paralelo, Berman era uma das maiores autoridades mundiais em George Berkeley e na filosofia irlandesa. Seu trabalho sobre o tema, como em "George Berkeley: Idealism and the Man" (1994), revela um pensador fascinado pela construção da realidade através da mente e da percepção. Longe de ser um campo distinto, seu interesse por Berkeley informava seu estudo sobre o ateísmo. Afinal, se a realidade depende da mente (divina ou humana), o que acontece quando a mente se recusa a postular um observador supremo? As duas vertentes de sua pesquisa eram, na verdade, uma investigação única sobre os alicerces da consciência e da existência. Estudar o idealismo de Berkeley era entender o ápice da crença metafísica; estudar o ateísmo era seguir essa mesma trilha até sua conclusão lógica oposta.

O legado de David Berman não reside em respostas definitivas, mas na qualidade de suas perguntas. Ele nos lembra que para compreender plenamente uma ideia, é preciso ter a coragem de estudar com o mesmo rigor a sua negação. O que resta, no fim, não é a certeza, mas um mapa mais honesto e completo do pensamento humano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Daily Nous